Em decisão inédita, agência reduz nota de risco de crédito dos EUA

Standard & Poor's rebaixa rating americano de AAA para AA+ e governo dos EUA diz que agência cometeu um erro de US$ 2 trilhões nos cálculos

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2011 | 00h00

Em uma iniciativa inédita, os Estados Unidos sofreram o rebaixamento da avaliação de risco de seu crédito de longo prazo. A nota de risco de crédito dos EUA da agência Standard & Poor"s passou de AAA - a avaliação mantida nos últimos 70 anos e a mais elevada do ranking - para AA+.

A medida foi tomada três dias depois da sanção da lei que evitou a suspensão de pagamentos pelo governo americano que esboçou o plano de ajuste de US$ 2,1 trilhões nas contas públicas federais nos próximos dez anos.

A S&P havia notificado a Casa Branca sobre a decisão antes de anunciá-la, como sempre, de surpresa e após o fechamento dos pregões das bolsas americanas. O Tesouro americano argumentou à agência ter havido falha de US$ 2 trilhões nos cálculos sobre as projeções das contas públicas do país. Porém, nem o Tesouro nem a S&P se manifestaram publicamente sobre o possível erro de cálculo.

Por meio de um comunicado emitido na noite de ontem, a S&P advertiu sobre a possibilidade de novo rebaixamento, para AA, nos próximos dois anos, "se virmos que o corte menor das despesas em relação ao acertado, o aumento nas taxas de juros ou novas pressões fiscais durante o período resultam em uma trajetória mais elevada da dívida governamental do que a atualmente sugerida pela nossa base de dados". "O panorama sobre a avaliação de longo prazo é negativo", acentuou.

A agência atribuiu sua decisão às medidas fiscais acordadas entre o Congresso e a Casa Branca para garantir a estabilização da dívida em médio prazo. Para a S&P, elas são insuficientes para garantir a estabilidade fiscal do país e sua capacidade de pagar as dívidas. O governo dos EUA acumula US$ 14,3 trilhões em dívidas, o equivalente a mais de 90% do Produto Interno Bruto (PIB).

"O rebaixamento reflete nossa opinião de que o plano de consolidação orçamentária, com o qual o Congresso e o governo concordaram recentemente, fica aquém do que, a nosso ver, seria necessário para estabilizar a dinâmica da dívida em médio prazo", informa a S&P.

"Mais amplamente, o rebaixamento reflete nossa visão de que a eficácia, a estabilidade e a previsibilidade das políticas americanos e as suas instituições políticas se enfraqueceram em um momento de desafios fiscais e econômicos a um grau maior do que imaginado quando foi atribuída uma perspectiva negativa para a avaliação de risco, em 18 de abril de 2011", acrescenta.

Até o momento, a agência de avaliação de risco Moody"s havia se manifestado com o possível rebaixamento da nota dos EUA, mantida em AAA desde 1917, em médio prazo. Mas se esquivara de tomar a iniciativa por enquanto, assim como a Fitch. Apenas a agência chinesa Dagong Global havia tomado a iniciativa nesta semana, ao reduzir a nota de risco dos EUA de A+ para A.

O rebaixamento deu-se no mesmo dia da divulgação da taxa de desemprego de 9,1% em julho, um indicador do compasso lento da recuperação econômica dos EUA. A iniciativa deverá trazer forte impacto na economia real americana nos próximos meses, com a pressão pelo aumento da remuneração dos títulos do Tesouro e, consequentemente, das taxas de juros para empréstimos e financiamentos ao investimento e ao consumidor.

Nos últimos dez dias, esse foi um temor repetido com insistência pelo presidente americano, Barack Obama, em seus alertas ao Congresso sobre a necessidade de um acordo equilibrado para o ajuste fiscal.

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