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Em defesa da mentira

Qual o incentivo futuro para ser honesto, se o público aceitar os desonestos?

Lourival Sant'Anna*, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2020 | 05h00

A pandemia evidencia a importância de dois valores atropelados por práticas políticas dos últimos anos: transparência e cooperação. São dois pilares de um conceito que acabou esvaziado pelo emprego abusivo, marqueteiro e insincero: governança. A pandemia mostra que salvar esses valores é questão de vida e morte.

A suspensão da fase 3 dos testes clínicos da Universidade Oxford em convênio com o laboratório anglo-sueco AstraZeneca depois de efeitos colaterais em uma voluntária teria sido um evento corriqueiro na pesquisa de uma vacina, em outros tempos. É para isso que se fazem testes. 

É só no contexto da imensa e justificada ansiedade causada pela pandemia, combinada com o clima de vale-tudo em que estamos vivendo, que essa suspensão se tornou formidável. 

O Fundo Russo de Investimento Direto, que patrocina a vacina Sputnik, obteve sua aprovação pelo Ministério da Saúde da Rússia antes de realizar a fase 3, que testa a segurança e eficácia em dezenas de milhares de pessoas. Arrastou consigo a reputação do lendário Instituto de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya, pioneiro em vacinas, fundado em Moscou em 1891.

As ações do AstraZeneca caíram e as de seus concorrentes, subiram, depois do anúncio. Qual o incentivo futuro para ser honesto, se o público aceitar os desonestos?

O diálogo gravado no dia 7 de fevereiro pelo jornalista Bob Woodward, no qual o presidente Donald Trump demonstra que sabe da gravidade da ameaça do coronavírus, é apenas mais uma evidência de algo que já estava claro em reportagens da imprensa americana. Enquanto era informado pela comunidade de inteligência sobre a sua gravidade, Trump a menosprezava em público. Tudo para não paralisar a economia, seu grande trunfo na corrida presidencial deste ano.

Num sinal dos tempos, Trump não procurou desmentir o sentido do diálogo com a clássica alegação de que teria sido tirado do contexto. Reafirmou que é papel de um governante não “alarmar a população”, algo que já havia reiterado quando confrontado com o contraste entre a seriedade da ameaça e suas mensagens – tão benevolentes para com o vírus.

A mentira sempre foi um componente central da política. E, em alguma medida, dos negócios. Mas antes, quando flagrado, o mentiroso buscava ou provar que não mentiu ou se desculpar. É estarrecedor que líderes de empresas, entidades e países considerem defender a mentira recompensador, mesmo depois de desmascarada.

Projeto de lei do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, deixa claro que ele não pretende cumprir o item do acordo do Brexit que prevê a manutenção da fronteira aberta entre a Irlanda do Norte, pertencente ao Reino Unido, e a República da Irlanda, membro da União Europeia (UE)

Esse item foi central na viabilização do tratado, protegido pela legislação internacional. Mesmo depois de assinar o acordo, Johnson continuou dizendo que o Mar Irlandês só seria uma fronteira fechada “por cima de seu cadáver”. O que torna improvável que o primeiro-ministro esteja apenas guardando uma carta na manga para trocar na negociação com a UE. 

Ainda que fosse esse o caso, aceitar a violação de um trato já firmado como trunfo para a próxima negociação é anular toda a confiabilidade do negociador e, em última análise, de todo acordo. Como disse a ex-primeira-ministra Theresa May: “Como pode o governo assegurar a futuros parceiros internacionais que podem confiar que o Reino Unido cumprirá obrigações legais dos acordos que assina?”

A transparência, o jogo limpo, é condição para o outro pilar da governança: a cooperação. Não há parceria sem confiança. Mesmo a competição, que é algo inerente ao humano, precisa ocorrer dentro de regras que lhe confiram justiça e previsibilidade. O resto é barbárie.

* É COLUNISTA DO ESTADÃO, REPÓRTER E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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