Em defesa de Rupert Murdoch

Paixão de magnata pelo jornalismo salvou do marasmo a imprensa da Grã-Bretanha

Roger Cohen, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2011 | 00h00

Advertência: esta coluna é uma defesa de Rupert Murdoch. No final das contas, ele foi bom para os jornais durante várias décadas, mantendo-os vivos e dinâmicos, sensacionalistas e muito respeitados. Sem ele, a mídia teria desaparecido totalmente da Grã-Bretanha.

O que me inspirou para escrever este artigo em defesa de Murdoch foi, em parte, o fato de que todo o mundo insistiu unicamente no escândalo britânico, como se esses crimes se limitassem à News International, braço britânico da News Corp., empresa do magnata.

É como se setores significativos do establishment britânico não tivessem contribuído com sua cumplicidade. Também influiu minha longa entrevista com Murdoch, há 21 anos, quando escrevi seu perfil para a revista do New York Times, experiência que me impressionou.

Antes de mencionar os motivos que me levaram a escrever o artigo, farei outras advertências. Em primeiro lugar, o grampo telefônico é evidentemente indefensável, além de ilegal. Em segundo lugar, a Fox News, TV fundada por Murdoch, com sua barulhenta demagogia de direita disfarçada de canal de notícias, prestou uma importante contribuição para a polarização da política americana, para a corrosão do debate ponderado, para o menosprezo da própria razão e para a paralisia de Washington. Por fim, discordo da opinião de Murdoch sobre uma série de questões - desde a mudança climática até o Oriente Médio - onde sua influência não foi nada útil.

Portanto, por que continuo admirando esse homem? O primeiro motivo é sua evidente repugnância pelas elites, pelas instituições confortáveis, pelos cartéis, por aquilo que ele chamou de "estrangulados sotaques britânicos" - na realidade, por tudo o que atravanca o caminho do esforço corajoso e da intensa agitação. Seu amor incondicional pelo jornalismo é uma das razões pelas quais a imprensa britânica é hoje uma das mais agressivas do mundo. O que é ótimo para as sociedades livres.

Murdoch me disse certa vez: "Quando cheguei à Grã-Bretanha, em 1968, descobri que era extremamente difícil conseguir que as pessoas do topo da escala social trabalhassem um dia inteiro. Como australiano, sempre tive de labutar diariamente de oito a dez horas, 48 semanas ao ano, e eu tinha de resolver tudo."

Visão. Então, foi muito fácil para ele, de 1969 em diante, adquirir veículos de comunicação que eram heranças de família. Ao longo do caminho, ele mostrou, muitas vezes, uma lealdade feroz a seus colaboradores - como agora em relação a Rebekah Brooks, diretora da News International - e injetou muito dinheiro em importantes jornais, como o Times, que de outro modo teria desaparecido.

A segunda coisa que eu admiro é sua determinação visionária, sempre pronta para assumir riscos, graças à qual chegou ao topo dessa indústria, enquanto a mídia sofria uma enorme transformação por causa da globalização e da digitalização.

Foi sua capacidade de enxergar muito adiante dos outros que lhe permitiu, a partir de dois modestos jornais herdados do pai em Adelaide, tornar-se o dono de uma companhia que tem cerca de US$ 33 bilhões em receitas anuais.

Sem dúvida, houve erros - o MySpace, site de mídia social que foi vendido por uma fração do preço de compra, é um deles. No entanto, prefiro destacar a média de acertos de Murdoch. Ele apostou consideravelmente na TV por satélite, nas oportunidades da mídia global nos esportes e na fusão de setores diferentes como televisão, livros, entretenimento, jornais e internet.

A British Sky Broadcasting e a Fox representam grandes empresas criadas do nada contra todas as probabilidades.Um dos ditados favoritos de Murdoch é: "Nós não negociamos parcelas de mercado. Nós criamos o mercado."

Evidentemente, seu sucesso provoca a inveja de muitas pessoas, um dos motivos pelos quais lhe foi atribuída a imagem de ogro do Cidadão Kane. Ele teria também apoiado Kane, que, ao ser questionado sobre como encontrou as condições de negócios na Europa, respondeu: "Com grande dificuldade."

Seu sucesso causou inveja redobrada na Grã-Bretanha, porque país que o considera sempre um forasteiro da Austrália - coisa que não existe nos EUA. O jornal The Times, que acho uma excelente leitura desde que me mudei para Londres no meio do ano passado, me impressionou por investir continuamente na cobertura internacional, por sua audaciosa decisão de criar um sistema de acesso pago ao site de sua edição online (pois é, as pessoas deveriam pagar pelo trabalho dos jornalistas) e pelo rigor do jornal sob a direção de James Harding. The Telegraph, à direita, e The Guardian, à esquerda, não são tão rigorosos.

Virada. A British Sky Broadcasting não é seguramente a Fox. É um canal variado com noticiários sérios. Acima de tudo, a mídia britânica sem Murdoch seria bastante pobre. A quebra da resistência dos sindicatos em Wapping, em 1986, foi decisiva para a vitalidade dos jornais.

Ele pegou o Times quando todos afirmavam que ele estava louco. Murdoch estava certo. Ele adora um furo, adora uma briga e tanto o Wall Street Journal quanto o Times mostram que jornalistas sérios podem crescer com ele.

Agora, no entanto, Murdoch tem graves problemas. A compra da British Sky Broadcasting ficou comprometida pela falta de capacidade de convencer as autoridades britânicas de que a direção da News Corp. era respeitável. Por causa disso, provavelmente, Rebekah Brooks foi sacrificada.

Os políticos que antes o bajulavam, agora o denigrem. O primeiro-ministro David Cameron está sem graça. Tanto Murdoch quanto seu filho, James Murdoch (que é muito esperto e tem uma visão mais centrista do que o pai), estão lutando. Aposto que sairão dessa. Quando perguntei a Murdoch o segredo da TV, ele me disse: "Enterre seus erros." Ele é uma força da natureza, e, no final das contas, e com algumas ressalvas, suas constantes inovações foram boas para a mídia e para o mundo tornar-se mais aberto. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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