Em defesa do anonimato na internet

Capacidade de se expressar sob uma identidade diferente permite que muita gente encontre liberdade para falar sem temer represálias de regimes autoritários

Melissa Bell e Elizabeth Flock, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2011 | 00h00

Na semana passada, descobrimos que a autora do blog A Gay Girl in Damascus (#147;Uma l#233;sbica em Damasco#148;) era, na verdade, um homem casado que mora na Esc#243;cia. No dia seguinte, outra blogueira gay tamb#233;m admitiu ser, na verdade, um aposentado de Ohio. Os dois disseram que escreviam como se fossem mulheres para, assim, serem levados mais a s#233;rio.

A ilus#227;o come#231;ou a se desfazer para a fict#237;cia Amina Arraf, que dizia atualizar seu blog a partir de Damasco, quando algu#233;m come#231;ou a circular na internet a not#237;cia de que ela teria sido presa por for#231;as do governo. Enquanto aqueles que a apoiam procuraram por ela, algumas perguntas come#231;aram a ser feitas: haveria algu#233;m que j#225; tivesse encontrado a blogueira na vida real? N#227;o.

Uma trilha de pistas digitais conduzia n#227;o a Amina Arraf, mas a um certo Tom MacMaster, um americano de 40 anos que mora em Edimburgo. Depois que MacMaster admitiu ter se passado por Amina, Bill Graber confessou ter inventado a blogueira l#233;sbica Paula Brooks, que seria supostamente a editora do site Lez Get Real. A revela#231;#227;o devastou o grande p#250;blico LGBT que acompanhava a p#225;gina.

Esses homens estavam mentindo. Suas grandes fic#231;#245;es desperdi#231;aram o tempo do Departamento de Estado, magoaram os amigos na rede que acreditaram naquelas hist#243;rias e podem ter levado #224; exposi#231;#227;o das identidades dos blogueiros an#244;nimos da S#237;ria. Agora, podem ainda fazer outra v#237;tima: o anonimato na internet.

Um autor s#237;rio que escreve sob o pseud#244;nimo de Daniel Nasser disse que, agora, #147;os editores de todo o mundo (ter#227;o) de verificar se eu sou mesmo uma pessoa real ou apenas outro personagem#148;. #147;A rela#231;#227;o de confian#231;a entre a m#237;dia estrangeira e esses ativistas, que precisam de todo o apoio que puderem receber para dar continuidade a sua corajosa luta, foi perdida.#148;

Se a revela#231;#227;o a respeito de Amina servir para prejudicar ainda mais o anonimato na rede, acabaremos perdendo boa parte daquilo que faz do debate livre e aberto na internet uma for#231;a t#227;o poderosa. Os eventos dram#225;ticos da primavera #225;rabe e do tumulto que ainda acomete a regi#227;o serviram para ilustrar a necessidade do anonimato, assim como o embuste de MacMaster destaca seu lado negativo.

Em Amina, os leitores e jornalistas do Ocidente pensaram ter encontrado uma voz capaz de explicar os complicados eventos que se desenrolam na S#237;ria. A mentira de MacMaster s#243; aumentou a confus#227;o em rela#231;#227;o #224;quilo que de fato ocorre no pa#237;s - onde jornalistas estrangeiros mal podem entrar, um lugar onde tanto blogueiros quanto agentes do governo usaram a tecnologia e os pseud#244;nimos para controlar e manipular as not#237;cias durante a primavera #225;rabe.

A falsidade na rede pode de fato ser perigosa. Judith Timson, colunista de Toronto que escreve nos jornais Globe amp; Mail, viu em MacMaster tra#231;os que a lembraram de um recente crime no Canad#225;, no qual um homem assumiu uma identidade falsa numa sala de bate-papo e encorajou uma jovem a tirar a pr#243;pria vida - coisa que ela fez.

#147;Sob a m#225;scara do anonimato, pessoas doentes, perversas ou simplesmente travessas, que n#227;o conseguem avan#231;ar na vida, podem fazer de tudo na rede#148;, escreveu Judith. #147;O que pode ter consequ#234;ncias relativamente menores, como no caso do site A Gay Girl in Damascus, ou resultar no incitamento ao suic#237;dio ou ao assassinato.#148;

Perfis falsos tamb#233;m t#234;m sido usados por governos autocr#225;ticos como forma de disseminar sua propaganda. Na S#237;ria, as autoridades t#234;m espalhado nas redes sociais mensagens supostamente escritas por cidad#227;os comuns apoiando o presidente Bashar Assad.

Apesar dos casos de uso equivocado do anonimato na rede, a capacidade de se expressar sob uma identidade diferente - o que possibilita, em certos casos, falar a um p#250;blico mais amplo - permite que incont#225;veis pessoas encontrem liberdade para experimentar sem temer repres#225;lias.

Digamos, por um instante, que o #250;nico crime de MacMaster e Graber tivesse sido o de fingirem ser mulheres escrevendo blogs fict#237;cios. Os pseud#244;nimos serviram como um poderoso disfarce sob o qual as mulheres fingiram ser homens durante gera#231;#245;es.

Os autores - e todos os demais - devem poder explorar na rede identidades e cren#231;as, sem que isso seja para sempre associado ao seu hist#243;rico no Google. #147;N#227;o acredito que a sociedade compreenda o que ocorre quando tudo se torna dispon#237;vel, conhec#237;vel e registr#225;vel por todo mundo o tempo todo#148;, disse Eric Schmidt, ex-diretor executivo do Google. Ele sugeriu que a #250;nica forma de as gera#231;#245;es futuras escaparem de seu passado digital ser#225; alterar o seu nome quando chegarem #224; idade adulta. Nesse futuro, todas as indiscri#231;#245;es da juventude ou todas as opini#245;es emitidas anteriormente seriam para sempre registradas.

Os coment#225;rios an#244;nimos, que podem ser um miasma de del#237;rios profanos, imprecisos e controvertidos, s#227;o, muitas vezes, usados como o principal exemplo do motivo pelo qual precisamos de mais autenticidade na rede. Al#233;m das preocupa#231;#245;es levantadas pelos embustes desmascarados na #250;ltima semana, a pr#243;pria rede j#225; representa um perigo para o anonimato. Embora a internet ofere#231;a muitas maneiras de ocultar a identidade, ela tamb#233;m torna mais f#225;cil a tarefa de rastrear as pessoas.

Em outros casos, as provas digitais levaram governos repressivos a fechar o cerco contra os escritores. Hossein Derakhshan, fundador do movimento dos blogueiros no Ir#227;, escreveu muito sobre seu pa#237;s. No julgamento dele, realizado no ano passado, esses textos postados em seu blog foram usados para conden#225;-lo por criar propaganda destinada a atacar o regime isl#226;mico. Ele foi sentenciado a 20 anos.

O anonimato permitiu que os blogueiros do Oriente M#233;dio contassem ao restante do mundo aquilo que est#225; ocorrendo em seus pa#237;ses durante a primavera #225;rabe. O anonimato confere a todos na rede uma liberdade de express#227;o, uma criatividade e uma amplitude de debate que poderia n#227;o existir se houvesse a necessidade de apresentar um nome real. Os perigos do anonimato n#227;o superam seus benef#237;cios. Temos de dar espa#231;o para as verdadeiras l#233;sbicas de Damasco, sejam elas quem forem. / TRADU#199;#195;O DE AUGUSTO CALIL

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