Em defesa do Partido Republicano

Mudanças têm provocado esvaziamento das legendas, transformadas em veículos para os empreendedores mais bem sucedidos

O Estado de S. Paulo

18 Abril 2016 | 03h00

Ao descobrir recentemente como é o verdadeiro processo de indicação no Partido Republicano, Donald Trump ficou furioso. “Eles quiseram deixar gente fora”, queixou-se aos berros. “Isso é sujeira.” Trump está certo na primeira observação e errado na segunda. Partidos políticos têm mecanismos para “deixar gente fora”. Mas, longe de serem “sujeira”, esses mecanismos são fatores vitais que tornam os partidos valiosos numa democracia.

Clinton Rossiter começa seu clássico Parties and Politics in America (Partidos e Política nos Estados Unidos) com esta declaração: “Não existe América sem democracia, não existe democracia sem política e não existe política sem partidos”. Num país grande e diversificado, para que as coisas funcionem as pessoas precisam de instrumentos para navegar pelo sistema político, para se organizarem, defenderem interesses particulares e ideologias e negociar com outros que tenham interesses e pontos de vista diferentes. Partidos políticos têm exercido tradicionalmente esse papel nos EUA. E muitas vezes fazem disso um contrapeso às paixões momentâneas do público.

No centro das decisões partidárias está a seleção dos candidatos presidenciais. O processo é controlado pela elite das agremiações – prefeitos, governadores, parlamentares. No início do século 20, foi acrescentado um mecanismo extra para testar a viabilidade de um futuro candidato: as eleições primárias. 

Mas, entre 1912 e 1968, mesmo ganhando as primárias presidenciais, o vencedor tinha menos de 50% de chances de ser indicado candidato. Dwight Eisenhower foi escolhido não por eleitores das primárias, mas numa convenção complexa e contestada.

Em 1968 as coisas mudaram. O radicalismo que varreu o Partido Democrata estabeleceu regras para a indicação, privilegiando as primárias acima de tudo. Os republicanos copiaram os democratas e logo os dois partidos estavam engajados no atual sistema. Para escolher seus candidatos nas eleições de novembro, os partidos simplesmente fazem primárias. Nesse particular, os Estados Unidos são quase os únicos entre as democracias avançadas. Em quase todos os outros países, os partidos não fazem do processo de indicação um plebiscito.

Esvaziamento. O resultado dessas mudanças tem sido o esvaziamento dos partidos políticos, transformados em veículos para os empreendedores políticos mais bem sucedidos. Ao descrever essas tendências num livro sobre democracia em 2003, escrevi que, sem partidos fortes, tudo que é preciso para disputar a presidência é ter um nome conhecido e uma máquina de angariar fundos.

Também predisse que um sistema sem partidos seria ideal para “dinastias políticas, celebridades e políticos bilionários”. Os favoritos nos dois partidos em 2016 se enquadram nessa descrição.

Qual o dano causado por esse novo sistema aberto? Hoje é possível saber. Um partido sem força e capacidade interna não consegue estabelecer uma agenda política. Em vez disso, simplesmente reflete e amplifica as paixões populares mais estridentes. O sistema anterior tendia à moderação, pois era dirigido principalmente por políticos municipais e estaduais que tinham ganho eleições gerais e governador. Hoje, delegados são escolhidos por eleitores de primárias, uma faixa muito menor, mais estreita e mais radical do país. É irônico que os velhos salões enfumaçados fossem, em certo sentido, mais representativos do eleitor comum que as primárias abertas de hoje.

Os velhos partidos tiravam sua força de organizações de bairro, igrejas, sindicatos e associações comerciais locais. Os novos são apenas uma seleção de profissionais de Washington – ativistas, ideólogos, levantadores de fundos e técnicos em pesquisas. 

Esses profissionais são mais radicais e menos práticos, e tentam transformar partidos grandes e diversificados em navios de guerra ideológicos. A declaração de Rossiter sobre democracia tem uma última frase: “Não há partidos sem compromisso e moderação”.

As primárias não são as únicas reformas “democráticas” que aleijaram os partidos políticos nos Estados Unidos. No Congresso, líderes partidários conseguiam montar uma agenda e fazer os correligionários votarem por meio dela. Esse sistema hierárquico começou a ruir após reformas da era Watergate, que abriram o sistema expandindo o número de subcomissões e instituindo eleições partidárias internas e voto aberto. O resultado foi caos, mau funcionamento e paralisia. Refletindo sobre as mudanças introduzidas por essa geração de políticos, o então senador Joe Biden declarou: “Criamos mais problemas que soluções. Nada saiu como achávamos que sairia”.

O velho sistema está quase morto. Na atual corrida republicana, ele tenta reviver para salvar o partido de um demagogo perigoso. Isso não é um assalto à democracia. O povo votará em novembro e esse voto é decisivo. Enquanto isso, vemos um esforço de uma das mais profundas instituições da política americana de moldar as escolhas que os eleitores terão de fazer em novembro. Às vezes, para fortalecer a democracia é preciso limitá-la. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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