Andrew Harnik/AP
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Em depoimento ao Congresso, outro diplomata admite pressão de Trump sobre Ucrânia

Muito incomodado, o presidente comparou a investigação da qual é alvo para a abertura de processo de impeachment a um 'linchamento', termo associado ao assassinato de negros por brancos nos séculos 19 e 20

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 22h02

WASHINGTON - O embaixador interino dos EUA na Ucrânia, Bill Taylor, revelou nesta terça-feira, 22, ter sido informado de que o presidente Donald Trump pretendia reter a ajuda militar ao país até que ele declarasse publicamente a abertura de investigações contra seu principal rival democrata, o ex-vice-presidente Joe Biden, e o filho dele Hunter. As declarações foram feitas à comissão democrata responsável pelo inquérito para a abertura de um impeachment contra Trump.

Muito incomodado, o presidente comparou a investigação da qual é alvo para a abertura de processo de impeachment a um "linchamento", uma palavra carregada de significado nos EUA, onde é associada ao assassinato de negros por brancos durante os séculos 19 e 20, principalmente no sul.

Taylor informou que Gordon Sondland, embaixador dos Estados Unidos na União Europeia, deixou claro que Trump havia vinculado a ajuda à Ucrânia a abertura de uma investigação relacionada a Hunter. Em seu próprio depoimento, no dia 17, Sondland havia confirmado pressão de Trump sobre Ucrânia para investigar Biden

“Durante um telefonema, o embaixador Gordon Sondland me disse que o presidente Trump lhe tinha dito que ele desejava que o presidente (Volodmir) Zelenski declarasse publicamente que a Ucrânia ia investigar a Burisma (empresa para a qual Hunter trabalhou) e a suposta interferência ucraniana nas eleições americana de 2016”, disse Taylor em seu testemunho.

Segundo Taylor, Sondland lhe disse que havia cometido um erro ao dizer a funcionários ucranianos que um encontro de Zelenski na Casa Branca dependeria do anúncio das investigações.

“O embaixador Sondland tentou me explicar que o presidente Trump é um empresário. Quando um empresário está prestes a assinar um cheque a alguém ele pede garantias à pessoa antes de assinar o cheque”, declarou Taylor. 

“Argumentei que a explicação não fazia sentido: os ucranianos não deviam nada ao presidente e segurar a ajuda de segurança por uma questão política interna era uma loucura”, disse Taylor.

Mais respostas do que perguntas

Os democratas descreveram o testemunho de Taylor como muito prejudicial a Trump. “Esse testemunho representa um mar de mudanças. Acho que vai acelerar as coisas”, disse o deputado democrata Stephen Lynch, de Massachusetts, à rede CNN. “Ele vai, acredito, responder mais questões do que levantar. Vamos ver o que vai dar.” 

Os democratas que controlam a Câmara dos Deputados procuram determinar se Trump usou a política externa americana para fins políticos pessoais. Especificamente, querem saber se o presidente republicano pressionou a Ucrânia, por meio de chantagem econômica, para obter uma vantagem pessoal. 

Uma pesquisa da rede CNN divulgada nesta terça-feira mostrou que 50% dos americanos apoiam um processo de impeachment contra Trump, enquanto 43% são contra. No entanto, como prova da forte divisão partidária entre os eleitores, 87% dos democratas são a favor do impeachment, contra apenas 6% dos republicanos.

Presidente fala em linchamento e cria nova polêmica 

Poucas horas antes do depoimento de Taylor, Trump se colocou mais uma vez no papel de vítima. 

"Se algum dia um democrata for presidente, e os republicanos ganharem a Câmara dos Deputados, incluindo por uma margem menor, podem levar o presidente a um julgamento político sem o devido processo, ou justiça, ou direito legal algum", escreveu Trump no Twitter.

"Todos os republicanos devem se lembrar do que estão testemunhando: um linchamento. Mas venceremos!", tuitou Trump.

A postagem de Trump na rede social provocou fortes reações na capital dos Estados Unidos. O líder da maioria do Senado, o republicano Mitch McConnell, referiu-se à declaração de Trump como uma "escolha infeliz de palavras".

"Dada à História no nosso país, eu não poderia comparar isso a um linchamento. Foi uma escolha infeliz de palavras", comentou.

James Clyburn, legislador democrata negro da Carolina do Sul, afirmou que "é uma palavra que nenhum presidente deveria usar para si mesmo".

"Venho do Sul. Conheço a história dessa palavra. É uma palavra que deve ser usada com muita, muita precaução", completou.

"Nunca vimos algo assim", acrescentou, referindo-se aos outros presidentes americanos (Andrew Johnson, Richard Nixon e Bill Clinton) que enfrentaram um processo de impeachment. 

Para o pré-candidato democrata Julián Castro, "é mais do que vergonhoso usar a palavra 'linchamento', porque ele é, de fato, responsável por suas ações".

Kristen Clarke, presidente do Comitê Nacional de Advogados para os Direitos Civis nos termos da Lei, disse se sentir "enojada ao ver a grave apropriação indevida deste termo por parte de Trump".

Clarke lembrou que 4.743 pessoas foram linchadas nos Estados Unidos entre 1882 e 1968. Deste total, 3.446 eram negras.

"Os linchamentos foram crimes contra a humanidade e uma parte desagradável da história da violência racial em nossa nação", ressaltou.

Jeb Bush, irmão e filho de ex-presidentes republicanos, e candidato nas primárias do partido em 2016, foi enfático: "O presidente não é uma vítima ... Estabelecer um paralelo entre a situação difícil e o linchamento é grotesco", afirmou.

A Casa Branca defendeu o uso dessa palavra garantindo que não houve uma referência histórica. "O presidente não estava tentando se comparar à terrível história deste país", disse Hogan Gidley, porta-voz do Executivo. / AP, AFP e REUTERS

 

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