Em dificuldades, Caracas se aproxima ainda mais de Brasília

Em 100 dias à frente da Venezuela, Maduro veio ao Brasil uma vez e conversou com Dilma seis vezes por telefone

LISANDRA PARAGUASSU, BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2013 | 02h08

Nos 100 dias em que comanda a Venezuela, Nicolás Maduro, eleito em 15 de abril, veio ao Brasil uma vez e conversou com a presidente Dilma Rousseff pelo menos seis vezes por telefone. A aproximação marcou um novo tipo de relação entre os dois países. Mais pragmático e envolvido em uma crise de escassez interminável, Maduro tem se voltado para o Brasil sem pestanejar, pedindo desde a colaboração para comprar alimentos até ouvindo conselhos de Dilma sobre como lidar com a oposição.

O governo brasileiro não vê mais o risco de uma crise institucional ou uma tentativa de golpe na Venezuela, mas avalia que a instabilidade política pode retardar a volta à normalidade econômica - e uma Venezuela com problemas econômicos é ruim para o Brasil e, principalmente, para o Mercosul, onde acabou de entrar.

O Brasil sabe que Maduro navega entre a necessidade de manter o discurso institucional, necessário à estabilidade, e o desejo de se firmar como herdeiro de Hugo Chávez. Apesar de ter sido apontado pelo próprio ex-presidente como seu escolhido, Maduro é observado de perto pelos rivais, especialmente pelo presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, que inicialmente se recusou a aceitar a liderança de Maduro.

Dilma tem conversado com Maduro para tentar convencê-lo a moderar o discurso, especialmente nas relações internacionais. A Venezuela não pode se dar ao luxo de criar mais inimigos, especialmente na vizinha Colômbia. Nas últimas semanas, Dilma também conversou com o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, para tentar manter o relacionamento entre os dois mandatários em um nível razoável, especialmente depois que Santos recebeu o opositor Henrique Capriles, ex-candidato a presidente.

Por outro lado, Brasília tem visto uma face mais pragmática de Caracas. Ao contrário de Chávez, que tentava manter um relacionamento de igual para igual com o Brasil, Maduro não tem pudores em dizer o que precisa. Na sua primeira visita, pediu ajuda na compra de alimentos e no fornecimento de energia.

Recém integrada ao Mercosul, a Venezuela contou com a colaboração do Itamaraty para manter o cronograma de integração, mesmo que não conseguisse mandar representantes a boa parte das reuniões do bloco. Há poucos dias, mais um pedido: o adiamento da reunião do fim do mês, quando o país deve assumir a presidência do Mercosul. O encontro foi remarcado para o fim de agosto, o que permitiu que o novo presidente paraguaio, Horacio Cartes, assuma e possa participar.

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