AFP PHOTO/ Nicholas KAMM
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Em discurso histórico, Obama pede a Raúl que não tema debate

Presidente defende fim do embargo e argumenta que sua presença na ilha serve para mostrar que regime não precisa temer os EUA

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / HAVANA

22 de março de 2016 | 14h14

HAVANA - Em discurso transmitido ao vivo pela TV estatal cubana, o presidente americano, Barack Obama, disse ontem a seu anfitrião, Raúl Castro, que ele não deve temer vozes divergentes nem a capacidade da população de seu país de se manifestar, se organizar e votar em seus líderes.  No último dia de sua histórica visita à ilha, Obama fez uma defensa contundente da democracia, usando a própria trajetória como exemplo do que esse sistema de governo pode proporcionar.

Na plateia estavam Raúl, integrantes de seu gabinete e centenas de convidados, entre os quais membros da delegação americana. Mas o principal alvo de Obama eram os cubanos que estavam sentados diante de televisores em suas casas. “Essa não é apenas uma política de normalização das relações com o governo cubano. Os Estados Unidos da América estão normalizando relações com o povo cubano.”

Obama afirmou que foi à ilha para enterrar o último vestígio da Guerra Fria nas Américas e estender uma “saudação de paz” à população da ilha. “Os Estados Unidos e Cuba são como dois irmãos separados por muitos anos”, disse. O presidente lembrou o embate ideológico entre os países e as hostilidades que marcaram sua relação por mais de cinco décadas. 

“Em um mundo que se refazia permanentemente, um elemento constante era o conflito entre os Estados Unidos e Cuba”, observou. “Eu conheço a história, mas me recuso a ser prisioneiro dela.” 

Obama elogiou o sistema educativo de Cuba e a atuação de milhares de médicos da ilha ao redor do mundo. Também reconheceu que os EUA têm seus próprios problemas, muitos dos quais apontados por Raúl: desigualdade econômica, pena de morte, discriminação racial e guerras no exterior. “Essa é uma mostra. Ele tem uma lista muito mais longa.”

Mas ele usou as críticas do dirigente cubano em sua defesa da democracia. “Eu acolho o debate e o diálogo. Isso é bom. Isso é saudável. Isso não me assusta”, declarou. 

Segundo Obama, essa mesma tolerância faz parte da vida pública em um sociedade democrática. “Eu acredito que cidadãos devem ser livres para dizer o que pensam sem medo, para se organizar, para criticar seus governos e para protestar pacificamente, e o Estado de Direito não pode incluir detenções arbitrárias de pessoas que exercem esses direitos.” 

O presidente usou sua trajetória na defesa de suas posições. Segundo ele, quando seu pai negro e sua mãe branca se casaram, uniões inter-raciais ainda eram ilegais nos Estados Unidos e muitas escolas se mantinham segregadas. “Mas as pessoas se organizaram, elas protestaram, elas debateram esses problemas, elas desafiaram seus governantes”, afirmou. “Em razão desses protestos, em razão desses debates, em razão dessa mobilização, eu posso estar aqui hoje como o primeiro afro-americano eleito presidente dos Estados Unidos.”

Transformações. Obama também defendeu o livre acesso à internet e transformações econômicas que permitam a expansão do setor privado na ilha. “Mesmo que nós levantemos o embargo amanhã, os cubanos não poderão desenvolver todo o seu potencial sem contínuas mudanças aqui.” Entre elas, o presidente mencionou a facilitação na abertura de negócios, a possibilidade de contratação de cubanos diretamente (sem intermediação do Estado) e o fim da disparidade de salários pagos em peso cubano e peso conversível. “Não há nenhuma limitação dos Estados Unidos para Cuba dar esses passos. Eles dependem de vocês.”

Quando apareceram lado a lado no Palácio da Revolução, na segunda-feira, Obama e Raúl já haviam deixado claras suas divergências em relação a direitos humanos e democracia, com o americano defendendo liberdades individuais e o cubano enfatizando direitos sociais, como o acesso à saúde e à educação públicas. 

Ontem, o visitante voltou a ressaltar as diferenças, dizendo que Cuba tem um sistema de partido único, enquanto os EUA possuem multipartidarismo. “Cuba tem um modelo econômico socialista; os Estados Unidos são um mercado aberto. Cuba enfatiza o papel e os direitos do Estado; os Estados Unidos são fundados nos direitos dos indivíduos”, declarou Obama.

Depois do discurso, comentaristas da TV estatal cubana questionaram as afirmações de Obama. Segundo eles, os EUA têm apenas um partido - o do dinheiro - dividido em duas facções, a democrata e a republicana. 

A fala mais aplaudida de Obama foi quando o presidente declarou que o embargo é uma carga obsoleta sobre o povo cubano e pediu que o Congresso americano "deixe para trás as batalhas ideológicas do passado". O presidente americano também citou várias vezes ao longo do discurso o poeta José Martí, herói da independência cubana. Ele também lembrou o passado colonial comum aos dois países, que comparou a "irmãos que há muito não se falam". 

Obama concluiu pedindo que os cubanos considerassem a diputa presidencial americana atual, como exemplo de como os tempos mudaram desde a revolução que levou Fidel Castro ao poder em 1959: "Temos dois americanos de origem cubana no Partido Republicano disputando contra o legado de um negro que tornou-se presidente. Eles argumentam ser a melhor pessoa para derrotar o candidato democrata, que pode ser uma mulher ou um social-democrata". /AP, NYT e AFP

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