REUTERS/James Lawler Duggan
REUTERS/James Lawler Duggan

Em discurso, Kerry repreende Israel e diz que assentamentos ameaçam a paz

Secretário de Estado dos EUA diz que Israel ‘nunca terá uma paz verdadeira’ com mundo árabe se não chegar a acordo que tenha como base Estados para israelenses e palestinos; em resposta, Netanyahu classifica posição americana de ‘tendenciosa’

O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2016 | 20h56

WASHINGTON - O secretário de Estado americano, John Kerry, alertou nesta quarta-feira, 28, ao primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, dizendo que o governo israelense está “minando” qualquer esperança de uma solução de dois Estados que colocaria fim ao conflito de uma década com os palestinos. 

Em um discurso feito semanas antes de o governo de Barack Obama passar o poder para o presidente eleito Donald Trump, Kerry disse que Israel “nunca terá uma paz verdadeira” com o mundo árabe se não chegar a um acordo que tenha como base Estados próprios para israelenses e palestinos.

“A verdade é que as tendências locais – a violência, o terrorismo, a incitação, a expansão dos assentamentos e uma ocupação aparentemente sem fim – estão destruindo a esperança de paz dos dois lados e cimentando cada vez mais uma realidade de um Estado irreversível que a maioria das pessoas de fato não quer.”

Segundo Kerry, a posição dos Estados Unidos no Conselho de Segurança de se abster em uma votação pró-palestinos foi assumida em um esforço para tentar salvar Israel dos “elementos mais extremos” dentro de seu próprio governo. 

Em um longo discurso no qual ofereceu sua “visão franca” sobre o conflito no Oriente Médio, Kerry assinalou que Israel está em vias de uma “ocupação perpétua” do território palestino e disse que os EUA não podem ficar em silêncio enquanto observam a possibilidade de paz desaparecer.

“A política de assentamentos está definindo o futuro em Israel. E seu propósito é claro. Eles acreditam em um único estado: o Grande Israel”, afirmou Kerry. “Apesar de nossos melhores esforços ao longo dos anos, a solução de dois Estados está agora sob sério risco.”

Com apenas 23 dias no cargo de secretário de Estado, Kerry, um ex-candidato à presidência dos EUA, fez da busca pela paz no Oriente Médio uma de suas principais missões nos quatro anos em que ocupou a função. Ontem, ele falou com clara frustração sobre o apoio contínuo de Netanyahu à política de assentamentos que “crescem estrategicamente em locais para tornar impossível a criação de dois Estados”. 

Kerry também criticou a violência palestina, que disse incluir “centenas de ataques terroristas no último ano”. No entanto, suas palavras de despedida dificilmente mudarão alguma coisa entre israelenses e palestinos nos territórios ou salvarão o histórico de esforços de paz fracassados de Obama no Oriente Médio. 

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, reagiu ao discurso acusando Kerry de ser tendencioso contra o Estado judeu. Em um comunicado divulgado em inglês por seu gabinete, Netanyahu disse que Kerry “obsessivamente lidou com assentamentos”, aos quais os Estados Unidos se opõem fortemente, e o criticou por apenas “tocar a raiz do conflito: a oposição palestina a um Estado judeu quaisquer que sejam as fronteiras”. 

No discurso de 70 minutos, Kerry defendeu a decisão americana de permitir a aprovação de uma resolução que exige o fim dos assentamentos israelenses. Kerry endossou vigorosamente a medida da ONU e rejeitou a crítica segundo a qual “o voto abandona Israel”. “Não é esta resolução que isola Israel, é a política permanente de construção de assentamentos que cria o risco de tornar a paz impossível.” / NYT, AFP e REUTERS

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