AFP PHOTO / TIMOTHY A. CLARY
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Em discurso na ONU, Temer defende desarmamento nuclear e critica nacionalismo exacerbado

Presidente brasileiro promoveu a acolhida de imigrantes e refugiados, e reafirmou o compromisso do Brasil com o Acordo de Paris, mas não fez nenhuma menção ao combate da corrupção ou às investigações que afetam seu governo

Cláudia Trevisan, enviada especial / Nova York, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2017 | 11h22

NOVA YORK, EUA - Em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira, 19, o presidente Michel Temer defendeu o desarmamento nuclear, manifestou-se contra o nacionalismo exacerbado e o protecionismo, e promoveu a acolhida de imigrantes e refugiados.

Ele também reafirmou o compromisso do Brasil com o Acordo de Paris sobre mudança climática e afirmou que o desmatamento na Amazônia diminuiu em 20% em 2016.

“Reiteramos nosso chamado a que as potências nucleares assumam compromissos adicionais de desarmamento”, declarou Temer no plenário da Assembleia-Geral da ONU, que se reúne neste ano sob o impacto dos recentes testes nucleares e de mísseis da Coreia do Norte. “O Brasil condena, com toda a veemência, esses atos. É urgente definir encaminhamento pacífico para a situação cujas consequências são imponderáveis.”

Na quarta-feira, Temer será o primeiro líder mundial a assinar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares, aprovado em julho por cerca de 120 países. O documento enfrenta oposição das potências atômicas e precisa de 50 assinaturas para entrar em vigor.

“O Brasil manifesta-se com a autoridade de quem, dominando a tecnologia nuclear, abriu mão, voluntariamente, de possuir armas nucleares. O Brasil pronuncia-se com a autoridade de um país cuja própria Constituição veta o uso da tecnologia nuclear para fins não-pacíficos”, declarou o presidente, que só foi aplaudido no fim de seu pronunciamento, de maneira protocolar.

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Como manda a tradição da ONU, o brasileiro foi o primeiro a discursar. O orador seguinte foi o presidente do EUA, Donald Trump, promotor de medidas restritivas à imigração e ao recebimento de refugiados, e eleito com o slogan nacionalista “América em Primeiro Lugar”. O líder da Casa Branca também é responsável pela decisão de retirar os EUA do Acordo de Paris, o mais ambicioso já aprovado no âmbito da ONU.

“Rechaçamos o racismo, a xenofobia e todas as formas de discriminação”, disse Temer. “Temos, hoje, uma das leis de refugiados mais modernas do mundo. Acabamos de modernizar também nossa lei de imigração, pautados pelo princípio da acolhida humanitária. Temos concedido vistos humanitários a cidadãos haitianos e sírios. E temos recebido milhares de imigrantes e refugiados da Venezuela.”

O terrorismo também foi abordado pelo presidente, que pediu “união” internacional para o seu combate. “É um mal que se alimenta dos fundamentalismos e da exclusão, e a que nenhum país está imune.” Mas ressaltou: “Não seremos acuados pelo terror, nem permitiremos que ele abale nossa crença na liberdade e na tolerância”.

Temer destacou que o momento atual de “incerteza e instabilidade” exige mais diplomacia, negociação, multilateralismo e diálogo. “Certamente necessitamos de mais ONU - e de uma ONU que tenha cada vez mais legitimidade e eficácia.”

No domingo, a embaixadora dos EUA na organização, Nikki Haley, disse que o Conselho de Segurança esgotou todas as opções para enfrentar a ameaça nuclear da Coreia do Norte e observou que o assunto pode passar das mãos dos diplomatas para os militares do Pentágono.

O presidente reiterou o pleito antigo do Brasil de reforma e ampliação do Conselho de Segurança, integrado por cinco países detentores de poder de veto: EUA, China, Índia, Inglaterra e França.

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A defesa do multilateralismo se estendeu à Organização Mundial de Comércio (OMC) e a um sistema de comércio internacional que se baseia em regras e mecanismos de solução de disputas. Temer defendeu a continuidade de negociações para a liberalização do comércio agrícola, tema de interesse dos países em desenvolvimento.

Ele usou parte de seu discurso para falar do processo de recuperação da economia nacional. “Com reformas estruturais, estamos superando uma crise econômica sem precedentes”, afirmou. “O novo Brasil que está surgindo das reformas é um país mais aberto ao mundo.” Contudo, ele não fez nenhuma menção ao combate da corrupção ou às investigações que afetam seu governo.

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