Polizeidirektion Dresden/Handout via Reuters
Polizeidirektion Dresden/Handout via Reuters

Em Dresden, um roubo no estilo 'Oito Mulheres e um Segredo'

Numa ação cinematográfica, ladrões levam joias de valor incalculável de uma coleção histórica

The Economist, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2019 | 09h00

BERLIM - No século XVIII, Augusto II, da Polônia, competia com Luís XIV, o Rei Sol, para ver quem reunia a mais extravagante coleção de joias da Europa. O Eleitor da Saxônia, que reinava sobre a Polônia e a Lituânia, provavelmente acabou vencendo: ele juntou inúmeros e fantásticos conjuntos de joias maravilhosas feitas com preciosos diamantes, rubis, safiras e esmeraldas, um tesouro que foi enriquecido por seu sucessor.

A coleção era uma “herança para o mundo”, diz Dyrk Syndram, diretor do Tesouro do Cofre Verde de Dresden, cidade alemã barroca no Rio Elba que guarda as joias. Ou guardava, até recentemente.

Numa rápida ação antes do amanhecer de 25 de novembro, pelo menos dois ladrões entraram na sala do Cofre Verde por uma pequena abertura que fizeram na grade de ferro de uma janela que vai até o chão. Eles aparentemente desativaram o sistema de alarme do museu pondo fogo num distribuidor de energia vizinho.

Já dentro, destruíram a machadadas uma caixa de vidro e levaram cerca de 100 peças de três dos conjuntos de joias do museu, incluindo inúmeros broches de diamante, um colar de pérolas histórico, uma espada de duelo com um diamante incrustado e a Estrela da Ordem da Águia Branca polonesa.

Guardas de segurança alertaram a polícia, mas quando ela chegou os ladrões já haviam fugido. O carro supostamente usado na fuga foi encontrado incendiado numa garagem subterrânea próxima.     

Um dos maiores tesouros da coleção, o Diamante Verde de Dresden, de 41 quilates, estava a salvo, emprestado ao Museu Metropolitano de Arte de Nova York para uma exposição sobre o esplendor das cortes europeias. As peças levadas, porém, estão avaliadas em muitos milhões de euros. “Ficamos devastados”, disse Max Hollein, diretor do Met.

Os preços em vertiginosa ascensão de obras de arte estão atraindo criminosos cada vez mais ousados. Em 13 de novembro, invasores saíam da Dulwich Picture Gallery, de Londres, levando dois Rembrandts quando foram detidos pela polícia. Eles conseguiram escapar, mas sem os quadros. Quatro homens estão sendo julgados pelo roubo, em 2017, de uma moeda de ouro gigante avaliada em cerca de US$ 4 milhões do Bode Museum, de Berlim.

Até agora, o roubo de Dresden – investigado por um esquadrão de 20 especialistas sob o nome de código de Epaulette – continua sem solução. O finado Martin Roth, ex-diretor da Coleção de Arte do Estado de Dresden (da qual as joias levadas fazem parte) afirmou em 2010 que “o Cofre Verde é seguro como Fort Knox”.

Roth acreditava que o “fator humano” e o “conhecimento interno” representavam os maiores riscos. Os funcionários do Cofre Verde serão interrogados minuciosamente. Por outro lado, diz Julian Radcliffe, do Registro de Arte Perdida, um banco de dados de Londres, ladrões podem colher um grande volume de informações numa exposição como simples visitantes.

As peças roubadas são tão valiosas quanto históricas. Elas sobreviveram ao bombardeio aliado de Dresden na 2ª Guerra Mundial, sendo, porém, levadas pela União Soviética. Foram milagrosamente restituídas , na íntegra, à Alemanha Oriental, e contribuíram com sua presença para o ressurgimento de Dresden. O lote total só foi exibido a partir de 2006, após a sofrida restauração do Castelo de Dresden.

O medo agora é de que as peças, como são muito conhecidas para serem vendidas intactas, sejam mutiladas e suas pedras preciosas sejam vendidas separadamente. Acredita-se que a grande moeda roubada do Bode Museum tenha sido derretida e vendida em partes. A perda das joias de Dresden pode ser muito mais triste que isso. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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