Em duas semanas, dois presidentes renunciam

O presidente interino da Argentina, Adolfo Rodríguez Saá, renunciou ao cargo no início da madrugada desta segunda-feira em um pronunciamento feito pela TV. Com a renúncia, assumiria novamente o presidente do Senado, Ramón Puerta. Menos de uma hora depois, Puerta - no meio de um ataque de asma - também renunciou.?Comunico esta decisão ao povo argentino e deixo a presidência desde este instante nas mãos do presidente do Senado, a quem comuniquei por telefone minha decisão?, foram as palavras de Saá em seu último discurso.Rumores de renúncia tomaram conta da cena política Argentina no final da noite deste domingo após a fracassada reunião entre os governadores da base aliada a Saá. Foram a falta de apoio político entre os governadores de seu próprio partido, o Partido Justicialista (peronista) e a renúncia de todo o gabinete presidencial que obrigaram Rodriguez Saá a renunciar. O presidente interino colocou a culpa de sua saída nos "lobbies econômicos". ?Esta atitude de mesquinhez e de esfacelamento dos apoios não me deixou outro caminho que não apresentar minha renúncia indeclinável à presidência?, disse Saá, em clara referência aos governadores de seu partido que faltaram à reunião de cúpula por ele convocada para ontem à tarde no balenário bonearense de Chapadmalal. Com um tom de acusação, sustentou que não seria "um presidente da velha Argentina". E continuou: "Não reprimirei o povo. Pretendi começar a mudança na Argentina, e estou certo de tê-la começado. Viva a Argentina". O governador da província de Córdoba, José Manuel de la Sota, retrucou Rodríguez Saá imediatamente: "Ele nunca nos consultou para nada, especialmente no projeto de criação de umanova moeda." De la Sota afirmou também que é preciso que se convoquem as eleições presidenciais o mais rápido possível, antes do dia 3 de março.Exatamente uma semana depois de tomar posse como presidente interino, Rodríguez Saá encontrava-se, antes da renúncia, no pior momento de seu breve governo. Sete dias antes, havia surpreendido os argentinos e seus correligionários peronistas com um discurso impactante, no qual anunciava a suspensão do pagamento da dívida externa pública e a criação de uma nova moeda, logo depois momentaneamente suspensa. Mas já na sexta-feira, o show político de Rodríguez Saá começou a sair do compasso, e no sábado teve que enfrentar seu primeiro "panelaço", realizado espontaneamente pela classe média de Buenos Aires.O último golpe foi a reunião com os governadores peronistas no balneário de Chapadmalal, que terminou sem soluções e com um indisfarçável mau humor. Seu objetivo inicial era discutir com os governadores a formação de um novo gabinete de ministros ? que eliminasse os integrantes suspeitos de casos de corrupção e colocasse em seus lugares homens de confiança dos governadores - além de medidas para tirar o país da grave crise social e financeira. Essa foi a crise que levou Saá à uma encruzilhada. De um total de 14 governadores convocados, apenas cinco compareceram.Contudo, o real motivo do desgaste entre a base Justicialista e Saá foi uma manobra política do ex-presidente. O pacto original dos peronistas no dia de sua posse, no domingo anterior, foi no sentido de colocar Rodríguez Saá como presidente interino do país, realizar eleições presidenciais no dia 3 de março de 2002 e a posse de um novo presidente no dia 5 de abril. Este novo presidente governaria até dezembro de 2003, completando o mandato inacabado do ex?presidente Fernando De la Rúa. Mas Rodríguez Saá, ao longo da semana, mobilizou seus assessores para aplicar uma manobra política e jurídica que suspendesse as eleições, de forma a permitir sua permanência no cargo até 2003.A manobra irritou os caciques do partido, que pretendem disputar as eleições de março. Com suas ausências na reunião de ontem, quiseram colocar Rodríguez Saá em ?seu devido lugar?. Os governadores são os verdadeiros caciques do peronismo, já que desde a saída de Carlos Menem da presidência do país em 1999, o partido não possui uma liderança única.Somado aos rumores, o fato de Rodriguez Saá suspender a reunião com os governadores e retornar a sua província (San Luis) para fazer um pronunciamento à nação, além da falta de detalhes sobre o conteúdo do texto que seria lido na TV, deixavam claro que Saá poderia realmente renunciar. Segundo fontes que participaram da reunião frustrada deste domingo, depois de horas esperando a chegada dos outros governadores, Rodríguez Saá levantou-se abruptamente da mesa de reuniões e disse aos presentes: "vou a San Luis, e renunciarei ali". San Luis é a sede de seu feudo político, a província que é governada por "El Adolfo", como lá é conhecido, há 18 anos. O atraso de mais de duas horas além do horário oficial do pronunciamento pode ter sido o último ato de Rodriguez Saá, tentando salvar seu breve governo.Hoje, 31 de dezembro, os bancos reabririam, e com um horário prolongado, das 8h às 20h, mas este havia sido um pedido do presidente que agora renunciou. Este pedido, se não for revogado por Camaño, deverá ser mantido. O último dia do ano 2001 será decisivo na vida da Argentina, um país mergulhado em incertezas.

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