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Em editorial, jornal mexicano indaga a cartéis: 'O que querem ver publicado?'

El Diario, principal jornal de Ciudad Juárez, cidade mexicana na fronteira com os EUA, publicou no domingo editorial pedindo uma trégua aos grupos criminosos que disputam o controle do tráfico de drogas na região. Num tom entre o desespero e a ironia, o texto sugere aos traficantes que expliquem quais informações podem ser publicadas. Em troca, pede que seus jornalistas não sejam mais assassinados e suas instalações deixem de ser alvo de ataques.

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2010 | 00h00

No editorial intitulado O que querem de nós?, o jornal reconhece que, no momento, os narcotraficantes são "as autoridades de facto" na cidade de 1,3 milhão de habitantes, que já registrou mais de 2 mil homicídios este ano.

El Diario também lamenta a morte de jornalistas em Ciudad Juárez. Na semana passada, dois fotógrafos da empresa foram atacados por pistoleiros. Um deles, Luis Carlos Santiago Orozco, de 21 anos, morreu. Mas o governo mexicano acredita que motivos pessoais, e não profissionais, estiveram por trás do assassinato.  

 

 

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Em 2008, o repórter policial Armando Rodríguez foi assassinado diante da casa dele. No ano seguinte, um agente federal que investigava o ataque também foi morto por pistoleiros.

"Somos comunicadores, não adivinhos. Portanto, como trabalhadores da informação, queremos que nos expliquem o que querem de nós, o que esperam que publiquemos ou deixemos de publicar, para saber a que nos ater", diz o editorial, que deixa claro não se tratar de uma "rendição", mas de um pedido de "trégua". "Até mesmo na guerra existem regras. E, em qualquer conflagração, existem protocolos e garantias para salvaguardar a integridade dos jornalistas."

Até ontem, nenhum grupo criminoso havia respondido ao apelo do jornal. No entanto, Martín Orquiz, jornalista do Diario, diz que o maior objetivo era atingir as autoridades mexicanas, mais do que os cartéis. "Foi uma manifestação retórica para fazer com que as instâncias governamentais e sociais se mexam, porque estamos paralisados", disse Orquiz, por e-mail, ao Estado.

"Sinceramente, não acreditamos que as organizações criminosas nos respondam. Eles não têm razão para isso. Mas se houver alguma reação analisaremos o que fazer", afirmou.

Pedro Torres Estrada, diretor-geral do Diario, disse que todos na redação estão "fartos" da violência. "Queremos que parem de nos usar como bucha de canhão nesta guerra", disse. "O pedido de trégua não é sinal de fraqueza. Apenas não sabemos mais a quem pedir justiça."

A única reação do governo mexicano foi um comunicado feito por Felipe Zamora, subsecretário de assuntos jurídicos do Ministério do Interior. "Não podemos dar trégua (aos cartéis) nem negociar", disse Zamora, que prometeu detalhar, na semana que vem, mecanismos de proteção aos jornalistas no México.

Segundo relatório do Comitê para a Proteção de Jornalistas, 22 jornalistas foram assassinados no México nos últimos quatro anos - 10 em 2010.

 

 

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