Imagem Adriana Carranca
Colunista
Adriana Carranca
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Em eleição histórica, Paquistão vota em meio a atentados e clima de medo

Instabilidade. Em um país marcado por golpes de Estado, é a primeira vez que um governo civil transfere poder para outro; o favorito é o ex-primeiro-ministro conservador Nawaz Sharif, antiamericano e religioso acusado de ligação com grupos extremistas

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2013 | 02h01

Ao despedir-se dos funcionários na quinta-feira, o embaixador do Brasil no Paquistão, Alfredo Leoni, ouviu de Murad, o copeiro: "Reze para que voltemos vivos". Mais de 84 milhões de paquistaneses vão às urnas hoje, em meio a um clima de medo, para fazer história. Será a primeira transferência de poder de um governo civil para outro - o que o Taleban tenta impedir. Pelo menos 127 pessoas morreram em um mês de campanha.

Às vésperas da votação, a violência levou o governo a decretar feriado nacional. Somente ontem, dez pessoas morreram em ataques relacionados às eleições. No último mês, foram pelo menos 45 atentados contra comícios e reuniões de partidos, principalmente seculares, ou assassinatos seletivos, que tinham candidatos como alvo.

O Exército reforçou a segurança nas ruas. Mais de 600 mil soldados e policiais estarão a postos nos 70 mil colégios eleitorais.

Em um comunicado distribuído a jornalistas ontem, o Tehrik-i-Taleban, o Taleban paquistanês, alerta a população a evitar as urnas "se não quiser perder a vida". "A democracia é um sistema não islâmico, um sistema de infiéis", diz a nota, assinada pelo porta-voz do grupo, Ehsanullah Ehsan.

Em outro episódio, o governo do Paquistão ordenou a saída do chefe do The New York Times no Paquistão, Declan Walsh. O jornal informou que irá recorrer da decisão.

"O clima é de muita tensão, mas os paquistaneses estão determinados a votar. Este é um momento histórico para o país, é a primeira vez que um governo civil consegue terminar o mandato", disse ao Estado o embaixador brasileiro. Em sua breve história desde a independência, em 1947, o Paquistão sofreu três golpes militares.

Cenário. Primeiro-ministro por dois mandatos, deposto em um golpe pelo general Pervez Musharraf, em 1999, o líder da conservadora Liga Muçulmana do Paquistão-Nawaz, Nawaz Sharif, deve sair vencedor, mas não com votos suficientes para governar sozinho, acreditam analistas.

O cenário mais provável é que Sharif forme um governo de coalizão com o Partido Popular do Paquistão, legenda da ex-premiê Benazir Bhutto e do presidente Asif Ali Zardari, que governou até o fim do mandato, em março - uma administração interina assumiu até as eleições. Assim, Zardari voltaria a presidir o país.

Mas seu poder está ameaçado pelo ídolo do críquete Imran Khan, do Movimento pela Justiça do Paquistão, que os analistas acreditam pode obter votos suficientes para participar do governo. Em campanha, ele negou a possibilidade de integrar uma coalizão. Khan fez seu último comício do hospital, onde está internado desde terça-feira, após cair de um palanque.

Maior força política do Paquistão, o partido de Zardari perdeu influência entre o eleitorado em razão dos graves problemas na economia. Ele também é visto como um "fantoche" dos EUA, que intensificaram no seu governo as ofensivas militares dentro do Paquistão - como a operação secreta americana que matou Osama bin Laden, em maio de 2011, e ataques com drones.

Sharif, um industrial multimilionário, concentrou sua campanha nos pontos fracos de Zardari: a economia e a soberania do Paquistão. "Os anos de apoio generoso dos EUA a Musharraf podem dificultar a relação com Sharif. É possível que ele nunca cumpra a promessa (de campanha) de impedir os drones. Washington, porém, deve estar preparado para a possibilidade de Sharif tentar renegociar os termos da cooperação", avalia Daniel Markey, do Conselho de Relações Internacionais.

Além disso, há dúvidas sobre a relação de Sharif, religioso conservador, com grupos extremistas. "Se os EUA buscam um aliado no contraterrorismo, terão dificuldades com Sharif."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.