Em eleição histórica, Timor deve eleger Xanana

A contagem dos votos da primeira eleição presidenciais de Timor Leste começou hoje em todo o país. Pela primeira vez, a contagem será feita em cada um dos 13 distritos e não apenas em Díli, como era feito até agora, por razões de segurança, pelos próprios timorenses, na presença de observadores nacionais e internacionais. A Comissão Eleitoral Independente, criada pelas Nações Unidas, considera esse um passo importante, uma espécie de "transferência de tecnologia eleitoral", ou de experiência democrática, que será vital para o futuro da mais jovem democracia do mundo. A contagem será manual e os resultados devem ser anunciados na quarta-feira.As primeiras eleições presidenciais da história de Timor Leste tiveram outro aspecto histórico: foram das mais pacíficas do mundo. O incidente mais grave registrado em todo o país foi uma mulher que tentou votar duas vezes. Na véspera, corriam boatos, citados por Xanana Gusmão, que aparece como virtual vencedor das eleições, que a população da localidade de Turiscaia, a cerca de 150 quilômetros de Díli, estava assustada. Segundo os rumores que circulavam, um grupo de ex-combatentes das Falintil, a guerrilha que durante 24 anos lutou pela independência do país, estava concentrado na aldeia de Mindelo, na montanha, acessível somente depois de seis horas a pé, e iria atacar Turiscaia no dia do voto. A população estaria se preparando para votar logo na abertura das urnas e se refugiar na montanha, como havia feito no plebiscito de 1999, que escolheu a independência de Timor.A reportagem da Agência Estado esteve em Turiscaia, junto com um observador internacional português, e pôde constatar que a situação estava perfeitamente normal, sem nenhum movimento de pânico da população. O chefe do centro de voto, originário do Gana e a CIVPOL, a polícia da ONU de plantão no local, atestaram que a população votou normalmente, a maioria antes ou depois da missa. A localidade, de difícil acesso por causa do péssimo estado das pistas, fica a cerca de quatro horas de carro de Díli, e nenhum outro observador internacional ou jornalista esteve no local até perto do momento do fechamento das urnas.Em todo o país, a eleição decorreu sem nenhum incidente e com um dos mais altos índices de participação do mundo (86,3%), num país onde o voto não é obrigatório. Timor tem sido um exemplo nessa matéria, no plebiscito que escolheu a independência, a participação foi de 98%. Em agosto do ano passado, nas eleições para a Assembléia Constituinte, 93% dos eleitores foram às urnas. Mas antes a participação era calculada sobre o total de eleitores inscritos e agora sobre a população em idade de votar - acima dos 17 anos. Até os prisioneiros puderam votar, assim como os refugiados que estavam em Timor Oeste e voltaram nas últimas semanas.Desta vez, os eleitores podiam votar em qualquer urna, em vez do centro de voto onde estavam inscritos, o que tornou o processo muito mais rápido, praticamente eliminando as filas. Como sempre, os timorenses votaram cedo, desde a abertura das urnas, às 7 h (horário local). Às 10h, a quase totalidade já tinha votado, mas os centros de voto ficaram abertos até às 14h, horário oficial do fechamento.Os dois candidatos, Xanana Gusmão e Xavier do Amaral, decidiram votar juntos, no mesmo momento, na mesma urna, trocando abraços antes e depois do voto. A campanha foi exemplar, sem nenhum ataque pessoal ou político entre os candidatos. Pelo contrário, os dois trocaram elogios e chegaram a dizer nos comícios que quem votasse num como no outro fazia muito bem.Quem chegasse a Timor no começo da semana teria dificuldade em acreditar que o país estava às vésperas de eleições presidenciais, ainda mais as primeiras da história de um povo que lutou por 24 anos contra a ocupação indonésia. A campanha, sem dúvida, foi das mais baratas do mundo, apenas algumas centenas de cartazes de cada candidato colocados no último momento e algumas milhares de camisetas distribuídas. Nenhum dos candidatos tinha dinheiro para a campanha e o pouco material que puderam dispor foi pago pelas Nações Unidas e impresso na Austrália.Entre os cerca de 2 mil observadores nacionais e internacionais, estavam três brasileiros, o ministro do Superior Tribunal Militar, Flávio da Cunha Bierrenbach, que foi observador nas eleições anteriores, o desembargador Luiz Carlos de Castro Lugon, da 4ª Região do Tribunal Regional Federal, e o diplomata Afonso Nery, que chefia a delegação da CPLP, Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.O administrador Transitório, Sérgio Vieira de Mello, também agiu como observador informal, visitando um centro de voto em Díli. Ele elogiou a maturidade política dos timorenses. "Eu não esperava outra coisa deles", afirmou o representante do secretário-geral das Nações Unidas.

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