Ernesto Benavides / AFP
Ernesto Benavides / AFP

Eleição no Chile terá 2º turno entre ultradireita e esquerda radical

Jose Antonio Kast e Gabriel Boric, ambos de partidos menos tradicionais, vão disputar a presidência em dezembro; para analistas, resultado é rompimento de ciclo pós-ditadura

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2021 | 21h38
Atualizado 24 de novembro de 2021 | 08h27

SANTIAGO - Candidatos radicais da esquerda e da direita farão o segundo turno no Chile, em uma disputa considerada a mais imprevisível desde a redemocratização do país, em 1990. Com todas as urnas apuradas, o ultradireitista Jose Antonio Kast, de 55 anos, do Partido Republicano, teve 27,9% dos votos. O deputado de esquerda Gabriel Boric, de 35 anos, do Convergência Social, teve 25,83%. A diferença entre os dois foi de 146.313 votos - uma das menores da história eleitoral chilena. 

O segundo turno acontece em 19 de dezembro, e o resultado é imprevisível. Pela primeira vez desde a redemocratização do Chile os partidos que governaram o país até hoje não estarão na disputa. “É um dado forte: depois de 30 anos as duas coalizões que governaram o Chile não vão para o segundo turno e correm o risco de ficar em 4.º e 5.º lugares”, afirmou Daniel Zovatto, diretor para América Latina e Caribe do Instituto para Democracia e Assistência Eleitoral Internacional (Idea). “Teremos um segundo turno muito polarizado, onde Kast inicia com uma certa vantagem, e o nível de participação eleitoral será uma de várias chaves.” 

 

Boric passou a campanha pregando uma mudança no modelo econômico liberal e defendendo bandeiras da esquerda radical, como um novo sistema de aposentadorias que assegure um valor mínimo de 250 mil pesos para todos os maiores de 65 anos, salário mínimo de 500 mil pesos até 2025, 500 mil novos empregos para mulheres e jornada de trabalho de 40 horas semanais.

Nas questões de gênero, o deputado defende criminalização da violência contra mulheres, legalização do aborto e plano de direitos sociais LGBT.

Já Kast – um admirador da ditadura de Augusto Pinochet, que durou de 1973 até 1990 – apostou suas fichas em um discurso de retomada da “ordem, segurança e liberdade”, após a violenta revolta popular enfrentada pelo atual presidente, Sebastián Piñera, em outubro de 2019.

Kast propõe uma “batalha cultural, ideológica e programática para retomar o caminho da verdadeira dignidade humana e o desenvolvimento”, inspirada pelo que chama de “trinômio República-liberdade-família”. Defende o fim da agenda de gênero (em 2017, num tuíte, criticou um suposto "lobby gay") e subsídios familiares apenas para casais legalmente unidos.

Chile tem fim do ciclo pós-ditadura Pinochet

Analistas afirmaram que as eleições de ontem devem encerrar um velho ciclo político do país, pois os dois favoritos se distanciaram das coalizões com partidos tradicionais, que governaram o Chile nas últimas décadas após o fim da ditadura. “É um ciclo de consolidação de um modelo de acumulação capitalista que se encerraria agora”, disse o analista político da Universidade de Santiago, Marcelo Mella. “Pode-se sustentar que são as últimas eleições do velho ciclo, já que elas podem terminar com um resultado diferente”, disse Raúl Elgueta, cientista político da mesma universidade.

Embora Boric e Kast sejam personalidades políticas com trajetória longa e ocupem assentos na Câmara dos Deputados (Boric, desde 2014, e Kast, desde 2002), são muito menos célebres que os protagonistas de disputas anteriores.

“Nenhum dos dois é um candidato comparável a Lagos, Bachelet ou Piñera”, escreveu o comentarista Carlos Correa no jornal La Tercera, de Santiago, referindo-se aos ex-presidentes Ricardo Lagos e Michele Bachelet, do Partido Socialista, e ao atual ocupante do cargo.

Os novos rostos da política chilena são um dos muitos resultados da onda de protestos de 2019 e 2020, apelidada de Santiagaço, que desembocou na eleição de uma Assembleia Constituinte para o país.

Políticos de partidos tradicionais serão fiéis da balança

Os dois candidatos que representam os tradicionais partidos chilenos ficaram de fora da disputa do segundo turno. O advogado da direita liberal Sebastián Sichel, que concorre como independente, mas com apoio do governo, e a ex-ministra de Michelle Bachelet, Yasna Provoste, de centro-esquerda, poderão ser fiéis da balança no segundo turno.

Piñera, que deixa o cargo desgastado, nem se deu o trabalho de defender sua gestão após votar e preferiu elogiar a democracia chilena. “Para aqueles que são eleitos, nunca se esqueçam que devem estar a serviço das pessoas. Pedimos para que todos contribuam para melhorar a qualidade da nossa política”, disse após sair do Estádio Municipal da comuna de Las Condes. “Todos os votos contam, todas as opiniões importam”, afirmou.

Sem maioria no Congresso

Seja quem for o próximo presidente do Chile, terá de negociar com vários partidos para conseguir maioria na Câmara e no Senado. Tanto Jose Antonio Kast quanto Gabriel Boric são apoiados por coligações que não serão as maiores, seja na Câmara, seja no Senado.

Na Câmara, quem vencer terá de costurar muitas alianças para atingir os 93 votos necessários para aprovar as normas constitucionais, o que equivale a 3/5 dos parlamentares.

No Senado, o número de assentos para a direita e esquerda está igual, empatados, o que indica o grau de polarização no país, e a dificuldade que o novo presidente terá. Na próxima legislatura, que começa em março, serão 50 senadores. A centro-esquerda soma 25 parlamentares, mesmo número da soma do Chile Vamos, da centro -direita, com o pacto do Partido Republicano, de Kast.

Após a eleição, na Câmara dos Deputados, a soma dos partidos de esquerda e centro-esquerda chega a 73 parlamentares, perdendo a maioria (78 dos 155 votos). A direita soma agora um total de 69 deputados. O restante é de partidos e candidatos independentes. 

 

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