AP Photo/Evan Vucci
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Em encontro, Trump e Macron defendem revisão de acordo com Irã

Na Casa Branca, presidente americano ameaça governo iraniano e diz que país ‘pagará preço’ alto se reativar programa nuclear

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2018 | 00h00

Em uma ameaça pouco velada de ataque militar, o presidente Donald Trump disse nesta terça-feira, 25, que o Irã pagará um “preço que poucos países jamais pagaram” se ameaçar os EUA e terá “grandes problemas” caso retome seu programa nuclear. Ao mesmo tempo, ele classificou de “insano” e “ridículo” o acordo de 2015 que tenta evitar justamente isso. 

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Convencer Trump a permanecer no acordo fechado entre EUA, Irã, Alemanha e os outros quatro integrantes do Conselho de Segurança da ONU era um dos principais objetivos do francês Emmanuel Macron em sua visita de Estado a Washington, a primeira do tipo recepcionada pelo atual ocupante da Casa Branca. Macron defendeu a manutenção do pacto e a negociação de compromissos adicionais, que tratem da atuação de Teerã no Oriente Médio e de seu desenvolvimento de mísseis balísticos. 

Depois de encontros nos quais o Irã foi o principal tema, Trump manteve suspense sobre a posição que adotará no dia 12 de maio, quando terá de decidir se os EUA permanecerão no acordo. “Há uma chance – e ninguém sabe o que eu vou fazer no dia 12, ainda que o sr. presidente (Macron) tenha uma boa ideia”, declarou o americano em entrevista coletiva ao lado do francês. “Esse acordo tem fundações podres.” Ainda assim, Trump observou que na vida e na liderança de países é preciso ser “flexível” e se mostrou aberto a um novo pacto. 

Enquanto os dois se reuniam na Casa Branca, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohamed Javad Zarif, dizia em entrevista à Associated Press que o pacto não sobreviverá sem os EUA. “Se deixarem o acordo nuclear, a consequência imediata mais provável é que o Irã responda da mesma maneira e também saia”, disse. “Não haveria vantagem para o Irã permanecer.”

Na esperança de salvar o pacto, Macron propôs sua manutenção e a negociação de compromissos adicionais, que abordem as preocupações dos EUA. “Por alguns meses, eu tenho dito que esse não é um acordo suficiente, mas ele nos permitiu, pelo menos até 2025, ter algum controle sobre as atividades nucleares deles”, sustentou.

No entanto a probabilidade de o Irã aceitar as propostas do francês é nula, avaliou Daniel Serwer, especialista em Oriente Médio da Escola de Estudos Internacionais Avançados na Universidade Johns Hopkins. Serwer acredita que as chances de Trump permanecer no acordo são mais altas do que suas declarações fazem supor. “Não faz nenhum sentido para os EUA abandoná-lo.”

Nader Hashemi, diretor do Centro para Estudos do Oriente Médio da Universidade de Denver, é menos otimista. Segundo ele, a influência de Macron sobre Trump é grande, mas não supera à de lobbies que têm pressionado o presidente a deixar o pacto: sua base republicana, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e os países árabes. “Eles querem que Trump deixe o acordo e confronte o Irã.” 

A posição foi reforçada pela chegada de John Bolton à chefia do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca e pela nomeação de Mike Pompeo para o comando do Departamento de Estado. Ambos são críticos do pacto. Na avaliação de Hashemi, o fim do acordo é um “cenário de pesadelo”, que fortalecerá as facções mais conservadoras do regime iraniano e “incendiará” o Oriente Médio.

Na entrevista coletiva ao lado de Macron, Trump também atacou seus aliados árabes “imensamente ricos” e afirmou que muitos não sobreviveriam se não fossem os EUA e, “em menor medida”, a França. “Eles não durariam uma semana. Nós os estamos protegendo.” 

Macron parece ter sido bem-sucedido em seu esforço para convencer Trump a manter tropas americanas na Síria por mais tempo que o planejado, ao colocar o futuro do país no âmbito de uma negociação mais ampla com o Irã. “Eu quero voltar para casa. Mas eu quero voltar para casa tendo concluído o que temos de concluir. Então, nós estamos negociando a Síria como parte de um acordo completo”, observou o americano.

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