Ariana Cubillos/AP
Ariana Cubillos/AP

Em exposição, a Venezuela que deveria existir

Fotos na ONU mostram um país que respeita os direitos humanos e avança na paz social

Jamil Chade, Correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

01 de novembro de 2016 | 05h00

Nenhuma cena sobre a repressão contra a oposição ou contra a imprensa. Nenhuma referência à migração de venezuelanos para o Brasil. Nada sobre a falta de abastecimento de alimentos ou a crise no setor hospitalar. A partir desta terça-feira, o governo da Venezuela abre uma exposição em um dos corredores da ONU com imagens do que o país, sob o governo de Nicolás Maduro, conquistou em termos sociais e em direitos humanos. 

A iniciativa ocorre ao mesmo tempo em que ONU põe sob avaliação a política de direitos humanos da Venezuela. Durante a sabatina desta terça-feira, governos de todo o mundo questionarão Caracas. A própria entidade internacional não tem poupado críticas a Maduro. Diplomatas consultados pelo Estado indicaram que o governo venezuelano será alvo de críticas e cobranças durante a reunião.

Países aliados da Venezuela prometem encher o debate com comentários positivos sobre o que ocorre no país. Do lado de fora, a campanha será reforçada com a exposição de fotos que será inaugurada pela chanceler Delcy Rodríguez. Sob o título de “Venezuela: Um País Garantidor dos Direitos Humanos”, o evento traz dados e imagens de uma nação que avança na paz social. 

“Nos últimos 17 anos, o Estado concentrou políticas públicas na proteção dos direitos humanos”, diz o primeiro dos cartazes, lembrando que grande parte da população esteve em uma situação de vulnerabilidade durante os últimos 40 anos. A primeira foto é de Maduro. Não falta ainda uma imagem da Constituição Venezuelana de 1999, segurada por uma criança. Na capa, o ex-presidente Hugo Chávez com as cores da bandeira. 

A exposição ainda traz dados sobre como a expectativa de vida aumentou, sobre a queda da taxa de analfabetismo e como a desigualdade social foi reduzida. No que se refere aos direitos políticos, a exposição mostra como um plano nacional de Direitos Humanos foi construído graças a uma “consulta pública que envolveu todos os setores”. Já a segurança garante um “modelo policial com base no respeito absoluto aos direitos humanos”.

Enquanto isso, as prisões seriam exemplares. “93% dos estabelecimentos penitenciários na Venezuela contam com um regime interno que garante trabalho, saúde e educação”, aponta outro trecho, que revela que existe até uma orquestra sinfônica penitenciária no país. Por fim, mais uma foto de Maduro. Desta vez, recebendo um prêmio da FAO por seus avanços no combate à fome. 

Diversos governos alertaram para o risco de que a ONU se transforme em um instrumento de propaganda para países-membros.

Para evitar ser impedido de organizar a exposição, o governo venezuelano não fez nenhuma solicitação ao Conselho de Direitos Humanos da ONU. A entidade, segundo a reportagem apurou, teria vetado a exposição. Para driblar a situação, Caracas apresentou o projeto apenas ao comitê de atividades culturais da ONU, como se a iniciativa fosse meramente cultural. Desse modo,a entidade não teve como rejeitar o pedido para que os espaços fossem cedidos.  

Mas, em seus exames sobre o que ocorre na Venezuela, a ONU tem deixado claro que está “alarmada” com as violações aos direitos humanos, com o comportamento do governo e aponta até mesmo que os avanços sociais foram seriamente comprometidos. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.