Mahmud Hams/AFP
Mahmud Hams/AFP

Em Gaza, aumentam os adeptos à caminhada como combate ao estresse da pandemia

Território onde vivem cerca de dois milhões de pessoas enfrenta 'duplo confinamento'

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2020 | 04h00

GAZA - Com a primeira luz do amanhecer, Gaza começa a se encher de silhuetas em movimento. O coronavírus fez com que as pessoas se voltassem aos esportes para buscar "libertação" da pandemia e do bloqueio israelense.

No calçadão, grupos de mulheres vestidas com longas túnicas que mal mostram os tênis e homens em roupas esportivas de grife, verdadeiras ou falsas, caminham.

Indo para lugar nenhum. A hora do rush acontece entre as 5h e as 7h da manhã. O tráfego se repete todas as manhãs neste território que, após três guerras com Israel, agora luta contra o novo "inimigo", a covid-19.

"Em Gaza, há uma forte pressão (psicológica). Nós sofremos. Muitas pessoas saem para caminhar na praia para escapar da atmosfera pesada", disse Walid al Louh, de 40 anos, usando uma viseira ianque de Nova York enquanto faz uma pausa na borda de paralelepípedos empoeirada.

“Antes do coronavírus, eu costumava andar. Havia talvez dezenas de pessoas, mas agora são centenas”, acrescenta.

Hanadi al Akawy, 32, um rosto luminoso envolto em um lenço, agora faz 5 km por dia com o marido para "liberar pressões psicológicas".

Abertura única

Cercado por uma cerca de alta segurança, o território palestino de 362 quilômetros quadrados, onde vivem cerca de dois milhões de pessoas, estava confinado muito antes da pandemia, como dizem os locais, com o bloqueio israelense imposto há mais de uma década.

Desde o início da epidemia, os únicos pontos de entrada e saída de Gaza - Erez com Israel e Rafah com o Egito - foram praticamente fechados. Isolada do mundo, a Faixa de Gaza registrou inicialmente alguns casos, limitados a centros de quarentena para pessoas autorizadas a entrar no enclave.

Mas em agosto, os primeiros casos foram registrados fora desses centros, em campos de refugiados, e no domingo 490 novos infectados já estavam registrados.

Diante do aumento de casos, o governo islâmico do Hamas, no poder em Gaza, decretou toque de recolher noturno e as lojas fecham agora às 17h.

“Duplo confinamento!”, lamentam os habitantes, aludindo às restrições sanitárias e ao bloqueio israelense.

Mais uma desgraça para uma população que tem a sensação de viver na "prisão", com desemprego endêmico (+ 50%) e uma economia devastada pela crise, afirma o psiquiatra Samir Zaqout de Gazati.

“As pessoas fazem o que podem para expressar suas emoções e a caminhada faz parte disso, principalmente à beira do mar, que é a nossa única janela para a liberdade”, diz Gazati.

"A prisão"

“Esses atletas me fazem pensar na cadeia”, onde os presos podem “expressar seus sentimentos”, antes de retornar à cela, acrescenta o psiquiatra, que tem trabalhado nos problemas de depressão nos campos palestinos e repreende as autoridades locais por subestimarem o impacto da crise na saúde mental da população.

De acordo com um estudo publicado em 2017 na revista científica Plos One, os Territórios Palestinos têm a maior taxa de depressão em uma região que inclui vários países que vão do Afeganistão ao Marrocos. E de acordo com uma pesquisa recente da ONG britânica Islamic Relief, mais de 80% dos 2 mil trabalhadores de Gaza entrevistados dizem que sofrem de "problemas mentais" relacionados a uma crise que reduz sua já limitada renda.

Na borda de Gaza, Marwan Al Assar corre enquanto olha para o resto das pessoas.

Durante anos, o comerciante de 60 anos caminhou e correu quase sozinho todas as manhãs e agora se considera um "herói" por ter encorajado aqueles próximos a ele a segui-lo.

“Hoje as pessoas me imitam, essa cultura cresce. É bom para o espírito andar, é vida!”, diz antes de começar a correr. /AFP

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