Said Khatib/AFP
Said Khatib/AFP

Em Gaza, empresa israelense transforma ar em água para amenizar crise

Pressão populacional esgotou aquífero, que foi preenchido com água salgada do Mar Mediterrâneo

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2021 | 04h30

GAZA - O que a empresa de um milionário russo-israelense está fazendo em Gaza, território controlado por islâmicos do Hamas? Transformando o ar em água potável para mitigar a crise desse elemento essencial no enclave palestino.

Há alguns anos, a ONU alertou que o esgotamento do aqüífero tornaria Gaza "inviável" a partir de 2020.

No telhado de um prédio em Khan Younis, no sul de Gaza, uma "revolução" está se formando silenciosamente. Um mosaico de painéis solares alimenta uma enorme máquina vibratória semelhante a um grupo gerador, que veio de Israel, e remove a umidade do ar para transformá-la em água potável.

Este microterritório de dois milhões de habitantes vive uma crise de água potável cujos efeitos se fazem sentir na população, que apresenta índices alarmantes de cálculo renal e diarreia, segundo os investigadores.

Em Gaza, a água potável foi retirada do solo durante séculos. Mas nas últimas décadas, a pressão populacional esgotou o aquífero, que foi preenchido com água salgada do Mar Mediterrâneo.

Essa água "serve apenas para lavar roupas, limpar e tomar banho", resume Ghassan Ashur, um comerciante de Khan Younis.

Os moradores de Gaza compram água engarrafada ou de caminhões-tanque, que a extraem do lençol freático.

“Extraímos até 80 mil litros de água aqui, que filtramos, adicionamos cloro e outros produtos químicos para torná-la potável”, explica Issa Al-Farra, dona de uma estação elevatória.

"Invivível"

Cerca de 3% da água potável de Gaza atende aos padrões internacionais, segundo a ONU.

As soluções surgem como a construção de uma dessalinizadora financiada pela União Europeia e a implantação dos três primeiros "geradores de água" da empresa israelense Watergen.

Dois foram doados pela empresa e um terceiro pelo Arava Environmental Research Institute, localizado em um kibutz no sul de Israel. Cada dispositivo custa cerca de 50 mil euros.

Um deles se estabeleceu no município de Khan Younis. É um enorme cubo de metal que captura a umidade do ar, condensa-a por meio de um processo de reaquecimento e, em seguida, filtra a água para torná-la potável.

"Esta máquina produz cerca de 5 mil litros de água potável por dia quando a taxa de umidade do ar ultrapassa 65% e 6 mil litros se ultrapassa 90%", disse à Agência France-Presse Fathi Sheikh Khalil, engenheiro elétrico e diretor da ONG palestina Damour, que gerencia o dispositivo.

Parte dessa água é consumida por funcionários municipais e parte é levada para o hospital, explica Khalil. "Uma ou duas máquinas não vão mudar tudo, mas é um começo."

Ao conectar "geradores de água" a painéis solares equipados com bateria, o custo de produção diminui, assim como as emissões de carbono.

Gaza tem uma única usina, que funciona com combustível importado e não é suficiente para atender a demanda local.

Mas neste território controlado pelo Hamas, movimento islâmico que enfrentou Israel em três guerras desde 2008, não é curioso trabalhar com uma empresa israelense? “Aceitamos a ajuda de quem quiser nos ajudar”, diz Khalil.

O Hamas não fez comentários.

"Ponto de inflexão"

Cerca de 80 km ao norte de Khan Younis, nas torres de vidro onde se concentra a mais recente tecnologia israelense, ficam os escritórios da Watergen, premiada por seus "geradores de água".

É dirigido por Michael Mirilashvili, um milionário russo-israelense de origem georgiana, preso por vários anos na Rússia pelo suposto sequestro dos sequestradores de seu pai, um rico empresário que foi detido por um tempo por gangsters georgianos.

Seu julgamento não "respeitou as regras de imparcialidade", de acordo com o Tribunal de Justiça Europeu, e ele foi libertado em 2009.

Instalado em Israel, o empresário comprou há cinco anos a startup Watergen, que exporta seus geradores de água para cerca de 80 países.

“Temos que ajudar nossos vizinhos primeiro”, disse ele à Agência France-Presse. O objetivo é “acabar com a crise da água em Gaza”.

No entanto, a entrega das máquinas em Gaza exigiu "a aprovação do exército israelense".

Como seus funcionários não podem ir ao enclave palestino por causa do bloqueio israelense, Watergen passou por intermediários como o Instituto Arava, que está em contato com ONGs palestinas.

“Nosso objetivo é aumentar a cadência do projeto em 2021” e colocar geradores nas escolas, afirma David Lehrer, presidente da Arava.

Embora "mais do que uma revolução da água", o que ele deseja é um "ponto de inflexão para sair do círculo vicioso negativo" das relações entre Israel e Gaza. /AFP

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