Em Gaza, o ''cupido'' do Hamas

Agência do grupo islâmico busca casar viúvas dos palestinos mortos na ofensiva de Israel

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

Emad Atallah conheceu a mulher numa agência de casamentos do Hamas. Aos 22 anos, casada havia um mês, ela ficara viúva do primeiro marido na ofensiva militar de Israel, que completou dois anos ontem. "Ele tinha um bom trabalho, era jovem como ela, então, achamos que o casal combinava. Ela aceitou", diz Nada Saed, uma espécie de cupido do Hamas. O casal já tem dois filhos, um menino e uma menina, ele revela, orgulhoso.

À frente da organização Sociedade Tayseer para Casamentos & Desenvolvimento, Saed é o responsável por arranjar marido para as viúvas dos mártires - desde dezembro de 2008, eles conseguiram casar mais de 80 viúvas dos palestinos mortos na ofensiva de Israel.

A organização auxilia os casais com o "douwry" (dote), a festa de casamento, os itens essenciais para a casa e, se o pretendente não tiver recursos, com o ouro que as noivas ganham de presente quando se casam. Também fazem empréstimos, a taxas de juros mais baixas do que no mercado - 3% ao mês.

A lista de viúvas é fornecida por ONGs e assistentes sociais. As mulheres preenchem um formulário com suas características - idade, altura, peso, cor dos olhos e dos cabelos, nível de educação, interesses etc. - e a organização sai em busca do "par perfeito", nas palavras do próprio Saed.

Se tiver sorte, ele pode estar logo ali: nos arquivos de pretendentes da Sociedade Tayseer. "As mulheres de mártires tendem a não querer se casar de novo, especialmente se têm filhos. Mas nós temos conseguido encontrar maridos para 20 delas por ano, em média."

Com a ofensiva de Israel na Faixa de Gaza, que deixou 1,4 mil mortos, em 2008, o número de viúvas "foi às alturas". Uma força-tarefa foi montada com o Ministérios de Relações com as Mulheres e a Corte Islâmica (responsável por deliberar sobre assuntos ligados à sharia). Com isso, conseguiram casar 50 viúvas em pouco mais de um ano.

Sob a foto do fundador e primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniye, pendurada na parede de seu escritório, Saed explica que o objetivo é o "crescimento e a prosperidade" da comunidade palestina. Outro motivo seria "a defesa da moral". Para os muçulmanos, ele explica, "o casamento é a principal ferramenta de proteção da sociedade".

"Nossa religião não permite pornografia, por exemplo, então, para proteger os garotos, é preciso casá-los cedo", diz.

Quando acredita ter encontrado um par perfeito para ele, ou ela, e ambos aceitam conhecer-se, a equipe de Saed organiza um encontro do casal e ambas as famílias, com o acompanhamento de uma assistente social do programa.

A organização também procura casar homens e mulheres deficientes físicos. Em 2009, realizaram um casamento coletivo de 70 desses casais - todos vítimas da ofensiva militar de Israel a Gaza, em 2008. Cada casal recebeu US$ 3 mil de presente do Hamas.

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