Samar Abu Elouf/NYT
Samar Abu Elouf/NYT

Em Gaza, um polêmico professor palestino ensina calmamente a poesia israelense

Nas redes sociais, Refaat Alareer faz duras críticas a Israel; na sala de aula, ele analisa criteriosamente a obra de alguns dos principais poetas do país, surpreendendo alguns de seus alunos

Patrick Kingsley, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2021 | 10h00

CIDADE DE GAZA — Quarenta e cinco minutos depois de começar sua primeira aula da manhã, um professor palestino da Universidade Islâmica, na Cidade de Gaza, tinha uma pergunta para as 70 alunas da turma de graduação em literatura: quem tinha escrito o poema sem assinatura que elas tinham lido durante a aula?

Para as alunas, a identidade do poeta (ou ao menos o seu perfil) era óbvia.

Tratava-se de um texto a respeito de Jerusalém, uma cidade que elas sempre celebraram mas nunca visitaram, enquanto jovens palestinas proibidas de deixarem Gaza durante a maior parte de suas vidas. E o poema era escrito a partir da perspectiva de um observador saudoso que, como elas, amava a cidade, mas não podia entrar nela.

Sua tradução começa mais ou menos assim:

Em um telhado da Cidade Velha

roupas limpas secam ao sol do fim da tarde

o lençol branco de uma mulher que é minha inimiga,

a toalha de um homem que é meu inimigo.

Sondos Alfayoumi ergueu a mão. O poema tinha sido escrito por um palestino, observando à distância a roupa lavada de um israelense, arriscou Alfayoumi, de 19 anos. “Os versos mostram um homem que não consegue acesso a algo que lhe pertence", disse ela. “Um homem trabalhando nos territórios ocupados.”

As colegas concordaram com gestos da cabeça. Somente um palestino poderia escrever com tanta ternura a respeito de Jerusalém, disse outra aluna.

Mas o professor, Refaat Alareer, tinha uma surpresa para elas. “Na verdade, o poeta responsável por esses lindos versos não é palestino", disse ele.

Um burburinho tomou a sala conforme a turma se dava conta do significado daquilo. Alguém ficou boquiaberta, e Alfayoumi abafou uma risada de choque.

“Trata-se de um poeta israelense", prosseguiu Alareer, “chamado Yehuda Amichai".

Foi um momento que acrescentou nuance a duas narrativas contrastantes: aquela adotada pelas próprias estudantes, muitas das quais conhecem alguém que tenha sido ferido ou morto por mísseis israelenses, e cuja interação com os israelenses costuma se limitar a ataques aéreos; e aquela de muitos israelenses, para quem o sistema de ensino palestino não seria nada além de um mecanismo de incitação.

Ali estava um reconhecimento do talento de um dos poetas mais queridos de Israel por parte de um professor palestino em uma universidade cofundada por um ex-líder do Hamas, grupo militante que governa Gaza, não reconhece a existência de Israel, e foi responsável por dezenas de ataques suicidas contra israelenses. De acordo com especialistas, o estudo da poesia israelense nas universidades palestinas é raro, mas não chega a ser algo sem precedentes.

Alareer disse às estudantes que admira o poema, Jerusalém, por borrar as divisões entre israelenses e palestinos, implicando que “Jerusalém pode ser o lugar onde todos nos reunimos, independentemente da religião e da fé".

“Quando li isso", acrescentou ele, “tive realmente um momento de admiração, pensando, ‘Meu Deus, que coisa linda. Nunca vi nada parecido. Nunca pensei que leria algo assim.’ E então me dei conta: não, há muitos outros israelenses, judeus, que são totalmente contra a ocupação".

Alareer, de 42 anos, não é um óbvio defensor da poesia hebraica.

O bloqueio egípcio e israelense a Gaza sufocou sua carreira acadêmica, em certos momentos impedindo-o de estudar no exterior. Ele tem parentes no Hamas, e seu irmão foi morto em 2014 durante a guerra com Israel. Alareer foi coeditor de dois livros de ensaios e contos a respeito das dificuldades da vida em Gaza.

E, nas redes sociais, ele frequentemente escreve textos furiosos descrevendo Israel como uma entidade maligna, publicações que levaram à suspensão do perfil dele no Twitter. Em uma publicação, ele escreveu: “Nenhuma forma ou meio de resistência dos Palestinos pode ser considerada terrorismo. Todos os israelenses são soldados. Toda a Palestina está ocupada".

Mas, na sala de aula, Alareer adota uma abordagem acadêmica mais moderada. Como parte de um curso de graduação a respeito da literatura internacional, ele comenta obras não apenas de Amichai, mas também de Tuvya Ruebner, outro destacado poeta israelense. Ele apresenta aos alunos O Mercador de Veneza e Oliver Twist, incentivando os estudantes a se colorarem no lugar dos personagens judeus, Shylock e Fagin.

Ainda que Shylock e Fagin, dois personagens complexos que alimentam debates há séculos e são amplamente considerados caricaturas antissemitas, pareçam escolhas incomuns para ensinar empatia aos palestinos, Alareer incentiva os alunos a desenvolver empatia em relação a eles enquanto vítimas de uma sociedade preconceituosa.

Em um ensaio de 2015, Alareer escreveu que o momento mais comovente de sua carreira de professor foi quando "perguntei aos estudantes com qual personagem eles se identificam mais: Otelo, com suas origens árabes, ou Shylock, o judeu. A maioria dos estudantes disse se sentir mais próxima de Shylock, demonstrando mais simpatia por ele do que por Otelo".

Seus alunos interpretaram o poema de Amichai como um retrato dos palestinos isolados de Jerusalém por uma muralha erguida na década de 2000. Mas a revelação da identidade do poeta foi um lembrete de como os judeus foram impedidos de frequentar o centro da cidade quando a Jordânia controlou a Cidade Velha de Jerusalém entre 1948 e 1967.

No céu da Cidade Velha

uma pipa

Presa à extremidade de uma linha,

uma criança

que não consigo ver

por causa do muro.

“Enquanto palestinos, temos algum problema com os judeus, por serem judeus?” indagou Alareer à turma. “Não, o que temos é uma luta do tipo político.”

Amichai morreu em 2000. A viúva dele, Chana Sokolov, e o filho, David, disseram posteriormente que apesar de discordarem do conteúdo das publicações de Alareer nas redes sociais, sentiram-se inspirados pela interpretação dele para o poema.

“Meu pai provavelmente ficaria muito satisfeito em saber que sua poesia é usada para ver a humanidade do outro lado", disse David Amichai, que pesquisa o antissemitismo na Universidade Hebraica de Jerusalém. “É muito comovente que ele use este poema para tentar ensinar a respeito da sociedade israelense", acrescentou Amichai.

Para alguns dos alunos de Alareer, a identidade israelense do poeta foi como uma pequena epifania.

“Talvez isso tenha mudado minha opinião a respeito da vivência deles", disse Alfayoumi. “É como se compartilhássemos algumas coisas. Temos coisas em comum.”

Mas então ela interrompeu o raciocínio. Há limites para a empatia que ela pode sentir em relação a um país cujos aviões de guerra bombardearam Gaza por 11 dias seguidos este ano.

Para os israelenses, o Hamas provocou a violência de maio: a guerra teve início depois que o Hamas disparou vários mísseis contra Jerusalém, mantendo apontados milhares de mísseis de baixa precisão contra muitas cidades israelenses.

Mas, para palestinos como Alfayoumi, o Hamas estava respondendo às ações de Israel em Jerusalém, incluindo investidas contra a mesquita de Aqsa. E o total de mortos ao fim do conflito foi assimétrico, com Gaza sofrendo quase todas as mais de 260 mortes causadas pelo conflito.

“No fim, as diferenças em nossas vivências são muitas, se comparamos as perdas deles e as nossas, e se comparamos o padrão de vida luxuoso deles ao nosso", disse Alfayoumi. “Podemos compartilhar experiências e ter vivências em comum, mas, no fim, eles terão de admitir o que fizeram.”

Outra aluna disse não conseguir acreditar que um israelense tivesse realmente escrito o poema, mesmo após Alareer ter revelado a identidade do autor.

“Insisto que deve ser um palestino", disse Aya al-Mufti, de 19 anos, citando o uso da expressão “Cidade Velha", que ela considerava típica de um árabe.

Alareer disse que ela tinha o direito de duvidar: o significado de qualquer texto está aberto à interpretação dos leitores. Mas ela seguiu rejeitando a possibilidade, indicando que talvez não tivesse compreendido o ponto central da aula. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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