Em Gezi, jovens sonham com um país mais livre

Tão logo as primeiras tropas de choque expulsaram na base da pancadaria os ativistas turcos do Parque Gezi, em Istambul, Hasan Seheiban, militante dos direitos dos homossexuais de 27 anos, tomou em punho um clássico da literatura local, posicionou-se à frente da barreira de policiais e recitou trechos da obra. Ainda que grupos minoritários tenham respondido à violência policial com vandalismo, a atmosfera na cidade pode ser resumida em um velho clichê: paz e amor.

ISTAMBUL, O Estado de S.Paulo

09 Junho 2013 | 02h02

O contraste entre a realidade que a imprensa internacional encontrou em Gezi e na Praça Taksim e o discurso do governo de Recep Tayyip Erdogan e da mídia turca - em grande parte controlada à força do Estado - foi de fato chocante.

Enquanto o primeiro-ministro denunciava "terroristas" e "agentes estrangeiros" que teriam tomado o centro de Istambul, obrigava a companhia telefônica Turkcell a cortar a internet 3G e denunciava o "perigo" das redes sociais Twitter e Facebook, o que se via eram milhares de famílias sentadas, fazendo piquenique no parque, e milhares de jovens confraternizando-se com música ou fazendo discursos apaixonados por democracia e liberdades individuais como o direito de protestar.

Enquanto emissoras de TV locais mostravam documentários sobre pinguins na Antártica, a CNN Internacional exibia cenas de repressão policial e de choques com pequenos grupos de manifestantes violentos oriundos de torcidas organizadas de Galatasaray e Besiktas.

Em geral, jornais, rádios e TVs nacionais, subservientes, também não viram nenhum problema na tentativa de Erdogan de tentar alterar a Constituição neste ano para ampliar os poderes do chefe de Estado - na prática implementando o presidencialismo - e seus planos públicos de se candidatar à presidência em 2014, perpetuando-se aos poucos no poder. "Éramos 20 ou 50. Agora é o povo turco, que não tinha tradição de protestar, que está nas ruas contra Erdogan", comemora Seheiban.

Mexendo a cabeça coberta com lenço e aprovando as palavras do amigo gay, a muçulmana praticante Beyza Burcak, universitária de 23 anos, também fazia críticas a Erdogan, mesmo que ele seja reputado por ter ampliado os direitos da comunidade islâmica mais conservadora do país. "Não estávamos contra Erdogan no primeiro dia. Mas hoje sua saída é um ponto comum. Lutamos por mais democracia e mais liberdade", explica. "Sou contra a islamização do país. Nós temos de respeitar diferentes convicções, sem impor nada a ninguém."

Entre as minorias religiosas, a insatisfação também é palpável. Iorgo Gun, católico ortodoxo que estava na Igreja Santa Trindade, dizia temer que, com Erdogan, a Turquia perca sua diversidade em favor dos grupos conservadores. "É claro que concordo com os protestos", afirma, sem hesitar: "Erdogan quer islamizar o país".

Mas se engana quem vê nos protestos a reprovação unânime do governo do primeiro-ministro. Na multifacetada Istambul, não é difícil encontrar seus apoiadores mais fervorosos. Que seja no distrito de Fatih ou no de Kasimpasa, onde se situam comunidades islâmicas mais tradicionais, Erdogan, mais do que uma referência polícia, segue um verdadeiro ídolo. "Ele acabou de ganhar eleições com 48% dos votos. O que eles querem?", questiona Utku Dogan, muçulmano praticante que deixava uma mesquita de Kasimpasa na quinta-feira.

Além de apoiar o premiê, muitos seguidores de Erdogan são fervorosos. Na madrugada de sexta-feira, milhares deles foram receber seu ídolo no aeroporto. Entre as frases do chefe de governo, entoavam gritos como "Que as mãos que ferem a polícia sejam quebradas" e "Deixe-nos agir e nós esmagaremos Taksim". / A.N.

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