Em Guantánamo, 275 aguardam acusações

Apesar das melhorias, muitos detentos ainda não sabem por que foram presos

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2008 | 00h00

Guantánamo é a prisão mais controversa do mundo. Foi criada pelo governo George W. Bush para abrigar alguns dos terroristas envolvidos nos ataques de 11 de setembro de 2001, mas encerra também muita gente inocente que não teve direito a julgamento até agora. Hoje, a prisão tem 275 detentos. O governo promove visitas para a mídia, parte da ofensiva de relações públicas da Casa Branca, para mostrar que Guantánamo "não é tão ruim assim". A reportagem do Estado participou de uma dessas visitas, em fevereiro. Nenhum guarda (ou jornalista) pode falar perto dos presos. Por questões de segurança, não se pode fotografar o rosto dos presos.O famigerado campo Raio X - com suas imagens indeléveis de prisioneiros de macacão laranja, capuz, e em gaiolas - é hoje um lugar fantasmagórico, cheio de mato crescido. O Pentágono faz questão de levar jornalistas ao campo, para mostrar que ele é coisa do passado. Hoje, os detentos têm direito a celas com ar condicionado, três refeições halal (preparadas de acordo com os preceitos islâmicos) por dia, um exemplar do Alcorão, sandália de dedo. Se forem comportados, ganham até um rolo de papel higiênico extra e um baralho.No Campo 4, onde ficam os detidos considerados menos perigosos, são oferecidas aulas de pashtu, árabe e inglês. Nos campos 5 e 6, de alta segurança, ficam os presos mais perigosos e aqueles com mau comportamento. Lá, eles ficam em isolamento 22 horas por dia - mas ainda em celas com ar condicionado, com direito a pasta e escova de dentes e as três refeições.E existe ainda o campo 7, cuja existência só foi revelada há pouco tempo e a localização é mantida sob sigilo. Lá ficam os chamados "detentos de alto valor", como Khalid Sheik Mohammad - acusado de ser o arquiteto dos ataques do 11 de Setembro.Muitos prisioneiros são um problema para o governo americano, que não sabe o que fazer com esses "combatentes inimigos". Alguns não podem ser mandados de volta para seus países, pois correm risco de ser torturados. Segundo o advogado David Cynamon, que representa vários presos de Guantánamo, não existem mais "as coisas medievais que aconteceram até 2003, mas as pessoas ainda estão sem direito a julgamento, sem saber de que crime são acusadas, sem a perspectiva de poder se defender".

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