Em Haifa, o jeito é rezar e seguir a vida, diz brasileira

A brasileira Claudia Santiago mora em Israel há três anos e considera Haifa, a cidade onde vive, um lugar lindo, que lembra a sua Salvador natal. Mas na terça-feira, Claudia decidiu deixar o marido para trás e partiu com a filha Jessica, de três meses, para uma cidade próxima, temendo os mísseis lançados pelo grupo militante Hezbollah contra a terceira maior cidade israelense. A mudança não foi definitiva. No fim de semana, ela diz que estará de volta, porque sente saudades do marido e precisa retomar o trabalho no kibutz, onde o casal vive. "Você reza, pede a Deus que uma bomba não caia em sua cabeça ou em sua casa e segue a vida. Aqui é assim. Essa é a vida."A brasileira é uma cristã de 32 anos que conheceu o marido, Elad Cohanim, um judeu de 30 anos, quando estudava medicina na Bolívia. Ela conta que tem mantido contato diário com ele e que o marido passa bem, apesar de ter escapado por pouco de um ataque do Hezbollah, na quinta-feira."Converso com ele todo dia. No dia em que caiu uma bomba ao lado do kibutz, todo mundo ficou assustado. Ele avisou que estava bem. Mas a bomba caiu bem perto, matou 20 vacas, mas nenhum dos moradores se feriu."Resistência A brasileira afirma que mesmo após os ataques do Hezbollah terem se intensificado, ela não tinha pensado em sair da cidade. Acabou mudando de idéia, no entanto, por temer pela vida da filha e após um ataque quase ter atingido a casa de uma amiga, que "fugiu da cidade, em estado de choque".Até então, ela conta que vinha seguindo uma rotina de interromper o que estava fazendo e sair em disparada para algum abrigo subterrâneo assim que soava o alarme de que a cidade estava sob ataque."Tocava o alarme, eu estava em casa fazendo alguma coisa, cozinhando, e tinha de sair correndo com a minha filha. Muita gente saía com duas crianças nos braços, direto para o abrigo. Aqui é obrigatório que casas ou apartamentos tenham um cômodo que resista ao impacto de bombas. Todos os kibutz têm quartos onde você pode se esconder no caso de um ataque. Mas nunca pensei que teria de correr para um esconderijo para me proteger de uma bomba."O marido de Claudia é estudante de ciências políticas e acompanha com atenção os eventos no Oriente Médio. A brasileira conta que ela e o marido compartilham da mesma visão sobre o conflito com o Líbano."Não aceito o que estamos vivendo. Quando um soldado de Israel foi seqüestrado na Palestina era, como dizemos por aqui, um conflito entre primos. O Hezbollah veio e seqüestrou dois. É como uma panela de pressão. Como é que um grupo terrorista comanda um país? Como é que o Exército libanês e o governo do Líbano não fazem nada contra eles?"´Demagogia´ No entender da brasileira, condenar Israel por tomar uma atitude supostamente desproporcional é "demagogia". "Foi uma provocação do Hezbollah. É como alguém entrar na sua casa, roubar um objeto e você dizer: Ok, vamos tentar resolver na conversa."A brasileira acrescenta que é "lógico que o arsenal de Israel é muito mais forte que o do Hezbollah. A resposta vai ser mais forte. Mas isso não significa que não morreu gente por aqui. Não significa que não estamos sofrendo".Claudia conta que, na parte de Haifa onde vive, a rotina segue normal, mas que o dia-a-dia no norte da cidade, próximo à fronteira com o Líbano, foi severamente abalado. "Lá, as pessoas preferem não sair de casa. Ninguém mais vai ao shopping, aos barzinhos. Está tudo fechado. Do outro lado, as coisas estão mais normais. Todo mundo continua trabalhando. A creche de minha família continua funcionando." Ainda que a rotina siga mais ou menos parecida com o que era antes, o clima está longe de ser tranqüilo, segundo ela. "Eu me sinto insegura. A qualquer momento, pode haver uma explosão, um atentado terrorista. Como você vai imaginar que tem um homem-bomba a seu lado? Você tem que seguir a vida, pensando no seu trabalho, no filho que você quer ter, no casamento que você quer ter, na casa que você quer comprar. Não pode ficar pensando no que pode acontecer. Se não você não vive aqui em Israel."

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