Em Havana, o dia foi como outro qualquer

Indiferença dos cubanos é vitória do Estado, que preparou saída de Fidel

AP, Havana, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2008 | 00h00

Os cubanos pareciam calmos, ontem, durante o anúncio da renúncia de Fidel Castro em uma rádio oficial. As crianças foram à escola com seus uniformes vermelhos e brancos e milhares de pessoas foram trabalhar normalmente, aceitando o inevitável com um misto de tristeza e esperança. A terça-feira foi um dia como outro qualquer - e essa foi uma vitória para a campanha do Estado comunista, cuidadosamente gerenciada para preparar os cidadãos cubanos e o mundo para a saída de cena de seu líder máximo. Como todos esperam que Raúl Castro fique na presidência, a especulação é para saber quem é que deve assumir o posto de número 2 do regime. Os favoritos são Carlos Lage, de 56 anos, o primeiro-ministro de fato e defensor de reformas econômicas, e Felipe Pérez Roque, de 42 anos, ministro das Relações Exteriores e visto como seguidor das políticas de Fidel. "Raúl também é velho", disse Isabel, de 61 anos, varredora de rua em Havana. Para ela, ele deveria ser sucedido por "alguém mais jovem", com novos olhos. "Ele continuará sendo meu comandante-em-chefe, meu presidente", disse Miriam, de 50 anos, que trabalha em um barco e, como a maioria dos cubanos, prefere não dar seu nome completo a um jornalista estrangeiro. "Mas não estou triste. Depois de 49 anos, ele vai finalmente descansar um pouco." Com a saída de Fidel, muitos em Cuba têm a expectativa de mudanças, de uma maior abertura para negócios privados, casas próprias e até viagens ao exterior. "Haverá mais liberdade com Raúl", prevê Andrés, de 63 anos. O presidente interino criou uma expectativa entre a população ao encorajar o debate crítico e reconhecer que o salário oficial - US$ 19 por mês, em média - é insuficiente. Para Fernando Rivero, de 50 anos, que trabalha na construção civil, os cubanos estão prontos para ajustes econômicos. "Desde que sejam controlados e que não resultem em métodos selvagens que não são convenientes para nós agora," disse. Quando ouviu que Fidel deixaria de ser o presidente de Cuba, o padeiro Humberto, de 25 anos, acionou um interruptor e girou uma torneira para ter certeza de que havia luz e água. Então, deu o dia por encerrado e foi pescar. Para ele, a alternativa do livre mercado deve ser pior. "Eu me acostumei a viver assim. Vejo o desenvolvimento humano em outros lugares e não estou convencido de que mudar é uma coisa boa."DISSIDENTESMembros dos pequenos e fragmentados grupos dissidentes cubanos deram boas-vindas à notícia da renúncia como um passo em direção à mudança. O líder oposicionista moderado Eloy Gutierrez Menoyo, que lutou na Revolução Cubana ao lado de Fidel, acredita que o próximo líder terá liberdade para "lançar mudanças econômicas e políticas". No entanto, Oswaldo Paya, do grupo pró-democracia Projeto Varella, foi cético. "Nós sempre mantivemos a esperança. A história dirá se hoje foi um bom dia", disse.

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