Anthony Wallace/AFP
Anthony Wallace/AFP

Em Hong Kong, manifestantes transformam universidade em fortaleza 

Há quase seis meses manifestantes ocupam as ruas da metrópole semiautônoma, exigindo mais democracia e menos intromissão chinesa

Casey Quackenbush e Gerry Shih / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2019 | 06h00

Atrás de uma barricada de andaimes de bambu, escrivaninhas e guarda-chuvas, Damon tira um cochilo encostado num pneu de caminhão tendo ao lado um bastão de beisebol.

Vestido de negro e usando joelheiras, o estudante de 17 anos aproveita um resquício de sombra ao meio-dia de quinta-feira. Ele quase não dormiu desde que se encastelou no câmpus da Universidade Chinesa.

Damon não sabe de onde veio o pneu-travesseiro – “talvez daquele caminhão ali”, diz, apontando o veículo tombado e incendiado. Duas noites antes, o caminhão foi explodido quando a polícia fechou uma ponte que leva à universidade, uma das mais prestigiadas de Hong Kong, provocando um dos piores confrontos do levante pró-democracia.

Há quase seis meses manifestantes ocupam as ruas da metrópole semiautônoma, exigindo mais democracia e menos intromissão chinesa. O movimento ficou mais dramático na noite de terça-feira: a polícia bombardeou estudantes com gás lacrimogêneo e balas de borracha e eles revidaram com coquetéis molotov e tijoladas. O câmpus da Universidade Chinesa virou zona de conflito. 

Desde então, a universidade foi ocupada por estudantes e voluntários e transformada em fortaleza. A ponte, ainda cheirando a gasolina e borracha queimada, virou um arsenal, com uma catapulta improvisada, dardos, arcos e flechas e coquetéis molotov. Tábuas são usadas como escudos.

“Eles têm balas de borracha e gás, enquanto nós não temos nada que pareça uma arma de verdade”, disse Jonathan, ex-aluno de 29 anos. Como Damon, ele só deu um nome.

A universidade fica no norte de Hong Kong, a 20 km do centro comercial da cidade. Com a suspensão das aulas, a atmosfera nos 140 hectares no câmpus está cada vez mais tensa. Quando soa uma sirene, todos se calam e olham na direção da fonte de ruído.

Centenas de manifestantes perembulam pelo câmpus totalmente grafitado  e transformado em comuna. Eles dormem pelos cantos, checam celulares e aproveitam o momento de trégua para descansar. Mas, à medida que o tempo passa, cresce a sensação de que tudo pode voltar a explodir a qualquer momento.

Pressionado pela liderança central chinesa, o governo de Hong Kong endureceu a mão com os manifestantes, que respondem com a mesma intensidade à repressão. A polícia baleou um manifestante e outro morreu ao cair do telhado quando as forças de segurança dispersavam uma manifestação. O governo de Hong Kong suspendeu as aulas no domingo e anunciou que vai recrutar novos reforços policiais.

O ataque da polícia à Universidade Chinesa está incentivando outras faculdades a resistir. Protestos eclodiram quinta-feira na Universidade Politécnica e no centro da cidade.

Nesta semana, um documento do governo chinês sobre política educacional enfatizou a necessidade de se promoverr a lealdade a Pequim. O tema “educação patriótica” é fator de discórdia em Hong Kong. Em 2012, estudantes e pais foram às ruas contra uma proposta de adoção de livros de textos chineses que aparentemente criticavam a democracia e exaltavam o “modelo chinês” de partido único.

O documento divulgado agora pelo governo chinês não deu detalhes, mas informou que um novo currículo nacional consolidaria “os fundamentos ideológicos e políticos”, ambos pilares do Partido Comunista, e reforçaria a “identidade nacional ... e a unidade étnica”.

Na mídia social chinesa, num post amplamente divulgado, Lu Kewen, um colunista popular, acusou a educação estilo ocidental de Hong Kong de instigar a população de menos de 30 anos a “adotar a ideologia do Ocidente” e “desprezar tudo que se refere à China continental”.

Na Universidade Chinesa, os manifestantes usam todos os recursos possíveis para fazer do câmpus uma perfeita cidadela. Uma equipe de primeiros socorros foi instalada no ginásio de esportes. Enfermeiros e voluntários cuidam de feridos. Num quadro estão relacionados quais são os ferimentos mais comuns– pernas golpeadas, olhos atingidos, tornozelos torcidos. Também há listas de plantonistas e telefones de emergência.

São de conferências virou central de suprimentos

A área de atletismo é o local peferido para se dormir, embora alguns manifestates prefiram erguer tendas nos pátios internos. Muitos usam casacos de inverno como cobertor e dormem sob guarda-chuvas. Um salão de conferências funciona como central de suprimentos, com pilhas de donativos: roupas, cobertores, baterias. Uma lanchonete improvisada tem doces, macarrão instantêneo e outros itens de alimentação rápida.

Na quinta-feira, o jornal controlado pelo governo Global Times tuitou que a polícia decretaria em breve toque de recolher, mas a mensagem foi rapidamente deletada.

Enquanto isso, estudantes de Hong Kong esperam novos ataques. Alguns falam em “4 de Junho” – referência ao massacre da Praça Tiananmen, em 1989, quando o governo chinês matou centenas, talvez milhares de manifestantes pró-democracia em Pequim.

“Estamos prevendo que o governo de Pequim e a polícia de Hong Kong vão invadir nosso câmpus, nossa liberdade, nosso futuro”, disse Damon. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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