Jerome Favre / EPA / EFE
Jerome Favre / EPA / EFE

Pela 1ª vez, polícia de Hong Kong usa canhões de água contra manifestantes

No 2.º dia consecutivo de protestos violentos na cidade, um agente chegou a disparar uma vez com uma arma de fogo; operadora de trens suspendeu alguns serviços para impedir que mais pessoas chegassem ao local dos atos

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h59
Atualizado 25 de agosto de 2019 | 19h18

HONG KONG - A polícia de Hong Kong usou, pela primeira vez, canhões de água, além de bombas de gás lacrimogêneo, contra manifestantes pró-democracia neste domingo, 25, no segundo dia seguido de protestos violentos na cidade. Um agente chegou a disparar uma vez com uma arma de fogo. Com máscaras e roupas pretas, os radicais jogavam bombas incendiárias contra os policiais.

A operadora de trens MTR suspendeu alguns serviços para tentar impedir que mais pessoas chegassem ao local dos protestos. Contudo, milhões de manifestantes, que pediam democracia para a ex-colônia britânica, conseguiram chegar a um estádio esportivo no porto de Kwai Chung, de onde partiram em marcha.

Os mais radicais quebravam pedaços do asfalto para usar como arma e espalhavam detergente nas vias para deixá-las escorregadias para os policiais. Apesar disso, a maioria dos presentes protestava de forma tranquila.

Os confrontos deste fim de semana marcaram o retorno da violência após dias de protestos pacíficos. Os atos tiveram início em junho, em razão de um projeto de lei que previa extradições à China, mas acabou suspenso.

A polícia disse à imprensa local que um oficial deu um tiro para cima durante os protestos, mas não confirmou se foi com munição real. Esta foi a primeira vez que uma arma de fogo foi disparada desde que os protestos começaram.

Maior crise política

A cidade de Hong Kong, um grande centro financeiro da Ásia, enfrenta a sua maior crise política desde que foi devolvida pelos britânicos aos chineses em 1997. Manifestantes dizem que lutam contra a erosão do modelo “um país, dois sistemas”, pactuado na época e que previa a continuidade das liberdades que inexistem na China como um todo.

M. Sung, um engenheiro de softwares de 53 anos, disse que esteve em quase todos os protestos e que continuará na ativa. “Sabemos que esta é a última chance de lutarmos pelo ‘um país, dois sistemas’. Do contrário, o Partido Comunista da China vai penetrar na nossa cidade-natal e controlar tudo”, afirmou. “Se nos mantivermos fortes, podemos seguir com este movimento por justiça e democracia. Não morreremos.”

A polícia disse que condena veementemente os manifestantes que estão “destruindo o espaço público” e prendeu 19 homens e 10 mulheres após os atos de sábado. Desde o início das manifestações, mais de 700 pessoas foram detidas.

Reação do governo

Desde o início do movimento, a reação do governo central tem sido mista. Embora não tenha o direito legal de intervir diretamente em Hong Kong, Pequim usou uma série de métodos, desde intimidação até propaganda e pressão econômica, para tentar conter a oposição.

O MTR está atualmente enfrentando críticas públicas, depois de aparentemente ter cedido à pressão da mídia oficial chinesa que acusou a empresa de estar a serviço dos movimentos dos manifestantes.

"Mesmo que nosso futuro seja sombrio, tentamos nos expressar de maneira racional", disse um manifestante de 20 anos. "Confiamos em nós mesmos e em nossa cidade, e um dia nossas demandas serão atendidas."

Segundo protesto

Um segundo protesto que reuniu centenas de pessoas, incluindo parentes de policiais, também foi realizado em outro local da cidade na tarde deste domingo.

Uma mulher que alegou ser casada com um policial se juntou ao protesto para declarar seu apoio à polícia. "Acredito que durante estes dois meses a polícia foi suficientemente desonrada", disse ela. "Eu realmente quero que saibam que, mesmo que o mundo inteiro cuspa em vocês, nós, da família, não faremos isso."

A polícia do território, regularmente criticada pelos manifestantes, tem sido alvo há semanas da ira dos manifestantes.

No sábado, a polícia enfrentou os radicais que ergueram uma barricada no leste de Hong Kong. Os confrontos marcaram o fim de um relativo período de calma de 10 dias.

A polícia disparou gás lacrimogêneo e agrediu manifestantes que atiravam pedras e garrafas. Dez pessoas foram hospitalizadas como resultado dos confrontos, incluindo duas em estado grave, segundo fontes médicas.

Os protestos são um grande desafio para os líderes do Partido Comunista, em Pequim. Eles desejam acabar com as manifestações antes do 70.º aniversário da República Popular da China, no dia 1.º de outubro.

Pequim enviou um recado de possível uso de maior força contra os manifestantes ao deslocar forças paramilitares para as fronteiras da cidade. / REUTERS e AFP

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