Lam Yik Fei/The New York Times
Lam Yik Fei/The New York Times

Em Hong Kong, milhares protestam contra projeto de lei pró China

Ao menos um milhão de pessoas foram às ruas contra projeto que poderá permitir extradições para a China continental; segundo críticos, medida pode gerar uma enxurrada de prisões

Redação, O Estado de S.Paulo

09 de junho de 2019 | 16h26

Centenas de milhares de pessoas encheram as ruas de Hong Kong, neste domingo, 9, protestar contra um projeto de lei que poderá permitir extradições para a China continental. Organizadores disseram que havia um milhão de pessoas no ato - um em cada 7 moradores da ilha. Houve confrontos com a polícia e dezenas de manifestantes ficaram feridos. Segundo os organizadores do ato, a medida pode gerar uma enxurrada de prisões e envios de opositores da ilha para as autoridades chinesas.

Mesmo depois da meia-noite as ruas ao redor da sede do governo central estavam lotadas  de milhares de pessoas acenando cartazes dizendo “No China Extradition” (Sem extradição para a China) e “No Evil Law” (Sem lei maligna), frases de efeito que rememoram os comícios pró-democracia que tomaram as ruas de Hong Kong em 2014. Policiais da tropa de choque com capacetes, bastões e escudos tentaram retirar os manifestantes à força, com cassetetes e spray de pimenta. Alguns manifestantes empurraram barreiras de metal e jogaram garrafas na polícia, gritando: "Cães comunistas".

A polícia estimou que havia 240 mil manifestantes no auge do protesto, mas os organizadores, com um número superior a um milhão, disseram que foi a maior manifestação desde 1989, quando 1,5 milhão de pessoas se reuniram para apoiar os manifestantes pró-democracia na Praça Tiannamen. 

O levante, o maior em Hong Kong desde os protestos pró-democracia ocorridos em 2014, são contra o projeto de lei apresentado há uma semana pelo governo local, conduzido por Carrie Lam, a executiva-chefe da cidade, eleita em 2017, ligada ao Partido Comunista da China. A proposta será votada até o fim do mês. A legislação permitiria que suspeitos de crimes sejam extraditados a países com os quais Hong Kong não tenha nenhum acordo formal de extradição. O objetivo imediato é permitir que o governo envie um acusado de homícidio de Hong Kong para Taiwan, onde ele é acusado de ter matado sua namorada. 

O Executivo de Hong Kong defende que a lei vai preencher uma brecha jurídica e que é necessária, em especial para permitir a extradição de cidadãos acusados de crimes graves. Os críticos insistem em que este caso é apenas uma desculpa para satisfazer Pequim, e temem as implicações mais amplas da legislação, particularmente a que permitiria extradições de dissidentes para a China continental.

O proejto deixaria a cargo de funcionários do Executivo a decisão de extraditar suspeitos de crimes, mas autoridades de Hong Kong afirmam que antes da decisão o caso seria julgado por um juiz independente. O governo também afirmou que a nova lei não será usada contra pessoas que enfrentam perseguição religiosa ou política.

Os moradores de Hong Kong temem que a China não cumpra essa promessa e que os cidadãos sofram detenções arbitrárias ou usem acusações aleatórias, como a de suborno ou corrupção, para prender opositores. 

Os críticos alegam que os tribunais de Hong Kong são transparentes e independentes, enquanto os da China continental não são independentes e atendem aos desejos do Executivo, onde o presidente Xi Jinping vem intensificando a repressão à sociedade civil. Nos últimos meses, uma dezena de dissidentes e críticos do regime chinês desapareceram de Hong Kong e estão em custódia da China continental, incluindo um bilionário chinês e homens associados a uma empresa que publicou livros que não agradam aos líderes políticos chineses.

"Eu acho que esta lei vai tirar nossas liberdades se for implementada", disse ao New York Times Peter Lam, um estudante de 16 anos do ensino médio. “Não teremos o direito de nos expressar. Portanto, devemos nos levantar e nos expressar hoje. ”

Preocupações com a proposta inspiraram centenas de petições de associações de estudantes e ex-alunos, organizações religiosas e grupos de comércio. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas, Repórteres Sem Fronteiras e outros grupos de liberdade de imprensa pediram ao governo de Hong Kong que abandone ou altere a legislação, citando a freqüente detenção de jornalistas no continente chinês. Governos estrangeiros, incluindo os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Canadá também expressaram preocupações.

Analistas ouvidos pela imprensa internacional dizem que é pouco provável que as manifestações tenham efeito. “Nos últimos anos, o governo chinês limitou a independência de Hong Kong, reprimiu o movimento democrático, impediu que candidatos da oposição concorressem e sufocou quase todos os movimentos de protesto”, disse ao  Ivan Choy, professor do Departamento de Governo e Administração Pública da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Segundo ele a menos que o governo recue, é provável que a medida passe na legislatura local, onde os legisladores pró-Pequim detêm 43 dos 70 assentos.“O maior problema é que Xi Jinping detém o poder na China e ele é um homem forte, com enorme poder econômico”, disse Choy. “Ele vai forçar a decisão de Carrie Lam de avançar com a proposta."/ AFP, REUTERS e AP

 

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