Em Israel, a desigualdade é o maior desafio

Israelenses criticam a política econômica de Bibi e o crescente abismo entre pobres e ricos no país

DANIEL, GORDIS , BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 02h06

O discurso do primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, ao Congresso dos Estados Unidos aparentemente foi o único assunto relacionado com Israel a receber a atenção da imprensa americana. O New York Times de segunda-feira trouxe duas matérias importantes sobre o país: uma sobre o dilema que o discurso do premiê criou para os democratas judeus no Congresso e outra afirmando que o discurso provoca uma grande divisão em Israel.

Mas não foi esse o assunto de conversa em Israel. Claro que a imprensa fez menção a ele, mas as críticas mais intensas antes das eleições do dia 17 em Israel têm a ver com a condução da economia por Netanyahu e a vala cada vez maior entre pobres e ricos.

O jornal Haaretz deu enorme destaque ao discurso na manhã de segunda-feira, mas na versão em hebraico incluiu no seu site muitas matérias sobre a economia. Segundo o jornal, no Sheba Medical Center, um dos mais importantes hospitais de Israel, a superlotação levou ao pedido de que ambulâncias não levassem mais pacientes ao hospital.

O Haaretz postou a foto de um paciente sendo medicado no corredor. O jornal também mencionou uma tímida volta das barracas que germinaram em Tel-Aviv há dois anos, com os israelenses protestando contra o alto custo dos aluguéis. O diário também tratou do que se tornou o tema mais simbólico do problema dos ricos contra os pobres na imprensa israelense: a investigação da aparente má administração financeira e sobre gastos excessivos nas residências do premiê.

No YNet, o site de notícias mais lido de Israel, os problemas no hospital de Sheba foram a principal notícia. O YNet incluiu uma foto mostrando um alvoroço no hospital e outra de ambulâncias em fila. O interessante é que ontem a única menção no site ao discurso de Netanyahu foi uma minúscula chamada na parte inferior de página.

O primeiro debate em Israel antes das eleições foi realizado na semana passada. Netanyahu, Isaac Herzog e Tzipi Livni, do partido de esquerda, recusaram-se a participar entendendo que só teriam a perder. Na conversa entre outros candidatos, o discurso do premiê nos EUA praticamente não foi mencionado.

Grande parte da tumultuada noite foi dedicada ao alto custo da habitação, à grande porcentagem de israelenses mergulhados em dívidas e à carga que a população ultraortodoxa, a maioria desempregada, representa para o restante da população.

Quando a política externa entrou no debate, o que se discutiu foi se a ideia de que um Estado palestino seria agora irrelevante. Naftali Bennet, do Jewish Home Party, afirmou que "dois Estados para dois povos" não é uma opção, ao passo que outros insistiram que essa ainda é a solução lógica.

Netanyahu qualificou as eleições como um referendo sobre a maneira como ele vem conduzindo a questão do Irã, que, segundo afirma, é o principal problema de Israel. Mas, para seu desapontamento, a eleição se transformou num embate sobre o modo como ele vem administrando a economia.

Com o governo de Barack Obama claramente em desacordo com Netanyahu em relação ao Irã, e com o Estado Islâmico próximo da fronteira ao norte de Israel minimizando as preocupações com relação aos palestinos, os israelenses não veem boas perspectivas no cenário internacional. Estão mais concentrados na qualidade de vida do seu país. Em todo o espectro político, a sensação é a de que, mesmo que Israel não tenha como meta retornar às suas raízes socialistas, o espírito igualitário que outrora motivou sua sociedade será totalmente descartado.

Quando Chaim Weizmann foi eleito o primeiro presidente de Israel, em fevereiro de 1949, disse à Knesset: "O mundo está observando e esperando para ver que caminho escolhemos para nós na organização das nossas vidas e qual será o caráter de nosso Estado. Está com os ouvidos atentos para saber se uma nova mensagem será enviada de Sion e qual será o conteúdo dela".

Os israelenses não usam mais termos assim bombásticos sobre uma nova visão emergindo do Sion, mas não acreditam que Israel terá um dia tal visão. Sim, estão divididos quanto à decisão do primeiro-ministro de iniciar uma disputa pública com Obama, mas não é isso que tira o seu sono à noite.

Embora questões de segurança e política externa sejam sempre fatores importantes que influenciam numa votação, essa eleição não terá nada a ver com a defesa do Estado, mas como assegurar que aquilo que está se desenvolvendo no país ainda vale a pena ser defendido. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É VICE-PRESIDENTE SÊNIOR E MEMBRO EMINENTE DO SHALEM COLLEGE EM JERUSALÉM

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