Menahem Kahana/Pool via AP
Menahem Kahana/Pool via AP

Em Israel, coalizão de direita radical tem vitória eleitoral e dá visibilidade a líder racista

Coalizão chamada Sionismo Religioso, anti-LGBT, defensora da segregação de árabes e do fim da cidadania israelense para não-judeus, deve ter entre seis e sete cadeiras no Parlamento e pode participar do novo governo

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2021 | 12h00
Atualizado 24 de março de 2021 | 19h28

JERUSALÉM - A coalizão formada por três partidos de extrema direita Sionismo Religioso superou as expectativas na eleição de Israel e, com 90% dos votos apurados, deve obter entre seis e sete cadeiras no Parlamento de Israel, a Knesset. Antes da eleição, analistas consideravam que a coalizão, liderada pelo Partido Sionismo Religioso (oficialmente União Nacional), comandado por Bezalel Smotrich, ficaria de fora do Parlamento, abaixo do limite eleitoral de quatro cadeiras mínimas para participar da Knesset.

Smotrich, que certa vez sugeriu enfermarias segregadas em hospitais para que "mulheres judias não tivessem de dar à luz ao lado de palestinas", comemorou os números sem precedentes cantando e dançando na frente de seus apoiadores na noite de terça-feira, quando foram divulgadas as primeiras pesquisas de boca de urna.

Mas com 90% dos votos apurados, Israel continua sem saber se alguma coalizão terá maioria suficiente para formar um governo após a eleição de terça-feira. E uma surpresa pode mudar o lado da balança. A entrada do pequeno partido islâmico de Mansour Abas, Raam, no Parlamento. De acordo com a apuração até a noite desta quarta-feira, Raam obteve pelo menos 3,5% dos votos, acima do limite de 3,25% necessários. Enquanto isso, o Likud, partido do primeiro-ministro, Binyamin Netanyahu, tem 30 cadeiras, seguido pelo Yesh Atid, de Yair Lapid, com 17.

Analistas afirmam que Netanyahu empurrou os partidos nanicos da direita radical para uma aliança com o Otzma Yehudit (Poder Judeu) de Itamar Ben-Gvir, para que juntos consigam superar a barreira de 3,25% e apoiem uma coalizão de direita após as eleições. Se os resultados se confirmarem, Ben-Gvir, o número três da coalizão, poderá pleitear um cargo ministerial em uma coalizão de governo, caso esse esforço seja liderado pelo primeiro-ministro. 

"Eu tenho um sonho", disse Ben-Gvir. "Eu tenho um sonho que os soldados israelenses viverão em uma nação que os defenda... Eu tenho um sonho que um governo de direita fortalecerá a identidade judaica deste país", disse ontem.

Ben-Gvir defende o incentivo à emigração forçada de cidadãos árabes que se recusem a declarar lealdade a Israel e a aceitar um "status inferior" em um estado judeu. Também defende que Israel expanda sua soberania por toda a Cisjordânia.

Advogado controvertido e polêmico, ele costumeiramente defende colonos judeus acusados de violência contra palestinos em território ocupado, suspeitos acusados de ataques terroristas de direita e judeus acusados de crimes de ódio, e representa o Lehava, uma organização que luta contra o casamento de judeus com não-judeus.

Ele foi condenado em 2007 por incitar o racismo após segurar cartazes em um protesto com os dizeres “Expulse o inimigo árabe”.

Até o ano passado, ele mantinha uma foto em sua sala de estar de Baruch Goldstein, um colono americano-israelense que em 1994 matou 29 palestinos em Hebron enquanto eles faziam as orações matinais.

Ben-Gvir é o herdeiro ideológico de Meir Kahane, um rabino nascido nos Estados Unidos que se tornou um líder religioso de extrema direita e cujo partido extremista, Kach, foi banido. Assassinado em 1990 em Nova York por um ultra-ordoxo, Kahane queria que os judeus adotassem o "poder judaico", inspirado nos Panteras Negras e outros grupos militantes étnicos da época.

O partido de Kahane tinha uma plataforma para "proteger a honra de Israel contra insultos dos negros", defendia o fim da cidadania israelense para não judeus e a expulsão de árabes do país e dos territórios controlados por Israel. Ele também queria proibir os casamentos mistos e as relações sexuais entre judeus e não judeus. Kahane alertava para os riscos de "mulheres judias sendo seduzidas por árabes" e propôs sentenças de prisão para "todo árabe que tiver relações sexuais com uma judia".

Ben-Gvir afirmou que o partido dele, o Poder Judeu, "não é uma continuação" da ideologia de Kahane, mas disse que considerava o homem "um santo, que lutou em guerras pelo povo de Israel e foi morto santificando o nome de Deus".

No mês passado, Netanyahu assinou um acordo com a coalizão Sionismo Religioso, do qual o Poder Judeu faz parte, prometendo cargos no governo em troca de apoio. O líder de 71 anos disse que Ben-Gvir faria parte de sua ampla coalizão, mas "não era adequado" para ser membro do gabinete.

Nahum Barnea, um comentarista do jornal mais vendido do país, o Yedioth Ahronoth, escreveu na quarta-feira que a ascensão do  Sionismo Religioso "não é apenas um golpe moral; é uma catástrofe ideológica". "O Likud agora é um refém nas mãos de um grupo de pessoas antidemocráticas, racistas, homofóbicas e patrocinadoras do terrorismo", escreveu Nahum Barnea.

O Poder Judeu é tão radical que nem mesmo os defensores geralmente firmes do primeiro-ministro estão conseguindo engolir a vitória.

O  American Israel Public Affairs Committee (Aipac), lobby judaico nos EUA, chamou o Poder Judeu de um partido de extremistas ultranacionalistas, de "racista e repreensível". 

Além de Ben-Gvir, Avi Maoz, que ocupa o sexto lugar na lista do Sionismo Religioso, parece ter uma vaga garantida na Knesset.

Maoz é o líder do Partido Noam, que também integra a aliança e foi fundado em 2019 por seguidores do rabino Tzvi Tau. O partido pediu para livrar Israel do que vê como influências não judias e "estrangeiras" - que ele culpou "pela crescente aceitação do estilo de vida LGBTQ".

Na visão de mundo de Tau, os "israelenses seculares representam forças imorais que estão corrompendo o país e levando-o em uma direção ímpia".

Na conferência de fundação do partido, Tau comparou o "mundo kosher" - o "puro Israel" dos ativistas do Noam - ao "mundo apodrecido e agonizante" da cultura secular.

"Não vamos deixar nossos meninos e meninas serem ratos de laboratório na pedagogia e demagogia do mundo pós-moderno. ... Este lesbianismo e homossexualidade são uma experiência ... quem está deixando isso acontecer?", disse. "Quem perguntou às pessoas o que elas pensam? Quem lhes deu o mandato de promover esses mitos de dois pais que são homens ou de dois pais que são mulheres?" e apelou a uma "revolução cidadã" contra isso./ COM AFP

Tudo o que sabemos sobre:
Israel [Ásia]Binyamin Netanyahu

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.