Em jogo, o capital político de Obama

Encontro com Bibi é crucial, depois de o presidente tornar central o conflito árabe-israelense

Simon Tisdall*, THE GUARDIAN, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Os alertas urgentes feitos pelo rei Abdullah, da Jordânia, em relação às perspectivas de guerra e paz no Oriente Médio aumentaram ainda mais a natureza crítica da reunião entre Barack Obama e o primeiro-ministro israelense, Binyamin "Bibi" Netanyahu, marcado para amanhã. É difícil exagerar ao se falar da importância do encontro - alguns o chamariam de confronto decisivo -, tanto para os dois políticos envolvidos quanto para uma região dilacerada por mais de meio século de discórdia e sangue.Estão em jogo boa parte do capital político de Obama e, principalmente, sua credibilidade pessoal. Depois de transformar a solução para a questão árabe-israelense num tema central de sua presidência, o presidente americano dispõe de uma estreita janela de oportunidade para convencer um mundo cético de sua capacidade de cumprir suas promessas. Encontros em separado com Abdullah e com o presidente do Egito, Hosni Mubarak, também foram agendados. A ideia é estabelecer novos moldes para a paz, um cronograma que possa, desta vez, conduzir a um resultado que satisfaça a todos.Abdullah sugeriu que o grande plano de Obama possa expandir a iniciativa árabe pela paz, proposta primeiro pelos sauditas, em 2002, ao oferecer o reconhecimento diplomático de Israel por parte de todos os países muçulmanos em troca da retirada israelense de todos os territórios palestinos ocupados.Se tudo der certo, Obama revelará em 4 de junho seu "New Deal" para o Oriente Médio durante visita ao Cairo. Seu discurso já é antecipado como manifesto histórico pela mudança nas relações entre o mundo islâmico e o Ocidente. Se ele incluir propostas substanciais para o fim do conflito árabe-israelense, pode ser que tamanha expectativa se justifique.Há muito em jogo também para Netanyahu, que já está procurando mais espaço de manobra. Um discurso austero feito pelo vice-presidente americano, Joe Biden, insistindo para que Israel inicie a suspensão dos bloqueios físicos e econômicos na Cisjordânia e na Faixa de Gaza e se prepare para fazer concessões em temas sensíveis, foi interpretado como um sinal da seriedade do compromisso de Obama.Outro presságio desconfortável foi a recepção de gala oferecida a Shimon Peres, presidente israelense e defensor do processo de paz, durante visita à Casa Branca há duas semanas. Para Netanyahu, já era ruim o fato de Peres ter chegado ao Salão Oval antes dele. Pior ainda foi o entusiasmo demonstrado diante de Peres por Obama e seus assessores mais influentes. O clima pode ser mais tenso esta semana.Netanyahu também tem enviado seus sinais. Uma linha vermelha que ele não pretende ultrapassar são as Colinas do Golan. Bibi diz que não as devolverá à Síria. E se os palestinos desejam um Estado soberano, Netanyahu diz que eles terão de aceitar Israel como um Estado perpetuamente judaico.Ao mesmo tempo, talvez influenciado por Tony Blair,um representante do chamado Quarteto (EUA, União Europeia, Rússia e Nações Unidas), o líder israelense disse aos colegas que seu país precisa fazer mais para auxiliar no desenvolvimento econômico e na educação dos palestinos, além de oferecer mais ajuda às forças de segurança da Autoridade Palestina. Netanyahu diz também estar pronto para negociar uma paz sem precondições, apesar de existir, na realidade, uma grande quantidade de exigências. Bibi sabe muito bem que há uma aliança informal entre os mundos árabe e muçulmano, a União Europeia, a ONU, a Rússia e a opinião pública mundial contra seu governo. Seu objetivo imediato é garantir que ele não seja atropelado pelo mastodonte diplomático que Obama está reunindo. Em Israel, alguns analistas sugerem que uma teimosia arisca, favorável à paz, mas resistente às mudanças, seria suficiente para sustentar a política de avanço gradual proposta por Netanyahu. Uma pesquisa de opinião citada pelo colunista Akiva Eldar, do jornal Haaretz, descobriu que 53% dos israelenses consideravam a Cisjordânia um território israelense libertado, e apenas uma minoria o considerava um território palestino sob ocupação. "Como uma criança mimada, Israel não tem pressa para entregar voluntariamente os territórios sob seu controle onde há décadas o país constrói assentamentos", escreveu Eldar. Seja como for, destacou ele, é possível que o fim do jogo esteja próximo. "O repertório de formas de exercer pressão à disposição do presidente americano é vasto e multifacetado. Parece que esta é uma lição que aprenderemos na marra." * Simon Tisdall é colunista

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