Em La Paz, colegas de Saboia temem 'punição exemplar'

Após fuga de senador que causou queda de Patriota e demissão de diplomatas, Itamaraty 'desaconselha' pessoal da missão a falar

RODRIGO CAVALHEIRO , ENVIADO ESPECIAL / LA PAZ, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2013 | 02h03

A exoneração dos diplomatas Eduardo Saboia e Marcel Biato de seus postos em La Paz, consumada na quinta-feira pelo Itamaraty, cinco dias após a fuga do senador Roger Pinto para o Brasil, ampliou entre ex-colegas da embaixada na Bolívia o temor de uma investigação de cartas marcadas nos próximos meses.

Durante dois dias, sete funcionários da missão na qual germinou a demissão do chanceler Antonio Patriota foram ouvidos pelo Estado sobre o ambiente pré e pós-fuga. Alguns falaram por minutos, outros responderam telegraficamente na calçada - o Itamaraty "desaconselhou" o grupo a dar entrevistas e o repórter, brasileiro, não foi convidado a passar da recepção. Os depoimentos são unânimes em três pontos: alívio por acabar com um confinamento de 455 dias que afetava a todos, convicção de que o senador merece asilo político e espanto com a reação irada do governo.

Ao longo de 15 meses, Pinto tornou-se parte do prédio da Avenida Arce. Cinco pessoas tinham direito de visitá-lo no quarto improvisado em um escritório: uma filha, uma assessora, um motorista, um advogado e sua mulher. Quando saiu de La Paz, no dia 23, uma sexta-feira, posou para uma foto em que os ponteiros de um relógio mostravam 14h24. Se o horário é exatamente o da saída, ainda havia expediente interno e externo - há cerca de 30 funcionários. Sua presença no edifício era comentada de forma permanente. Agora, o assunto é sua ausência.

"A sensação é a de que tiramos o bode da sala. É como se um corpo estranho finalmente saísse", diz um adido militar, para quem a preocupação pela segurança do senador era um stress permanente. Não havia somente que prestar atenção às tendências suicidas alegadas por Saboia para justificar a fuga, feita ao longo de 22 horas de viagem. "Se ele de repente decidisse sair e sofresse alguma coisa, era nossa responsabilidade", completa o militar.

Saboia, o encarregado de negócios que liderou a operação, afirma que ninguém mais sabia do plano. "Se você tem uma situação de emergência, você tem de reagir na hora", disse quinta-feira Saboia ao Estado, reforçando o argumento de que agiu espontaneamente.

Os dois personagens demitidos têm, na amostragem colhida com os sete funcionários, perfis e popularidades distintas. Saboia, que assumiu a autoria completa do plano de fuga do senador, ganhou ares de mártir. Ele se destacou, dizem ex-colegas, pela obstinação no caso dos corintianos presos em Oruro, acusados de participação na morte de Kevin Beltran, de 14 anos, vítima de um foguete vindo da torcida brasileira. Saboia foi 16 vezes até a prisão. "Em uma delas, desceu à cela para provar que os brasileiros não usavam celular. É um sujeito benquisto", afirma um funcionário, abrindo bem os olhos para dar ênfase.

Biato, o embaixador que entrou em férias seis dias antes da fuga, é considerado pelos ex-colegas um diplomata que pagou por desagradar ao governo boliviano. Foi ele quem deu asilo a Pinto. Recentemente, criticou reservadamente a expulsão em maio pelo governo de Evo Morales da agência antidrogas do governo americano (DEA). O comentário vazou e engordou a conta de insatisfações do governo Evo. Em junho, sua transferência para a Suécia foi definida. Seu caráter controvertido fez com que, mesmo quem não concordasse, na embaixada, com a decisão, deduzisse quais eram as razões.

Segundo fontes na Polícia Federal, a saída da DEA da Bolívia, criticada por Biato, permitiu ao Brasil avançar no combate ao narcotráfico que atinge a fronteira - os americanos estariam mais preocupados com a droga que ia para o norte. A embaixada está sem adido da PF.

"Biato me protegeu e deu segurança e abrigo. Sofreu pessoalmente os rigores deste poder irracional ao qual denuncio, pelo único fato de ter me recebido e, com isso, cumprir com um compromisso internacional", disse o senador. Biato, que também teve a nomeação como embaixador na Suécia cancelada pela presidente Dilma Rousseff na semana passada, não atendeu a telefonemas para comentar sua participação na fuga.

Embora a atuação de Biato seja controvertida - informalmente, no Itamaraty, se dizia que ele tinha "agenda própria" -, sua iniciativa de conceder asilo a Pinto, que chegou à missão em 18 de junho de 2012, foi defendida por todos os funcionários ouvidos. "Eu leio os jornais mencionando, quase sempre no pé, esta condenação dele a 1 ano de prisão (o senador foi condenado, em primeira instância, pelo desvio de R$ 3,7 milhões) e lembro do absurdo que foi este julgamento. Não houve o mínimo direito de defesa", sustenta um diplomata. "A verdade é que há uma sobreposição entre Executivo e Judiciário. Questões administrativas passam a ser penais. O que era permitido há 10 ou 15 anos passa a ser proibido, mas retroage sobre aquilo que alguém fez antes de a lei mudar. É algo que vai contra um princípio básico de direito. Algo que para nós é difícil entender. Podem buscar algo que seu avô fez e responsabilizá-lo", completa.

No início da semana passada, o Itamaraty escolheu um nome forte entre seus quadros, o embaixador João Luiz de Barros Pereira Pinto, para tentar normalizar o ambiente na missão enquanto o embaixador nomeado, Raymundo Santos Rocha Magno, que estava na Romênia, não é sabatinado. Pinto (o embaixador, não o senador), terá a missão de retomar o diálogo com o governo boliviano, contrariado com a linha de Biato, sem parecer submisso. Uma tarefa tão espinhosa que um diplomata brincou: "Deus nos ajude". Inevitavelmente, terá de lidar com a apreensão de subordinados com a investigação de uma fuga que já derrubou o ministro Patriota e os dois principais nomes da embaixada.

"O Itamaraty quer saber quem sabia do que. E para isso provavelmente vai comparar depoimentos. Estamos todos preocupados, minha cabeça está...", disse outro funcionário, terminando a frase com o dedo indicador "cortando", da esquerda para direita, o pescoço. Nas palavras deste empregado do Itamaraty de olheiras profundas - traço já incapaz de identificar qualquer um na embaixada - não se imaginava na segunda-feira que Patriota pudesse perder o emprego por algo que trouxe alívio à missão.

"Ninguém está autorizado a falar. Ninguém sabe como isso será feito. Você chegou muito cedo", brincou um funcionário. Por e-mail, o Itamaraty informou que a sindicância "é um instrumento previsto em lei que garante direito de ampla defesa a todos os envolvidos".

Saboia e Biato serão ouvidos no Brasil. Os que trabalham em La Paz devem ser interrogados por enviados de Brasília. A comissão é formada por dois embaixadores e um assessor especial da Controladoria-Geral da União que têm um prazo inicial de 30 dias para investigar - prorrogável por mais 60 dias. Normalmente, as investigações são levadas adiante só por diplomatas. A mudança, segundo o Itamaraty, garante mais neutralidade ao processo. Se todos os prazos de extensão forem usados, uma sentença deve sair até 23 de novembro. Saboia já disse que apresentará documentos provando que as negociações eram "um faz de conta". A tendência é que seus interlocutores sejam chamados a depor. Informado pelo Estado da preocupação de seus ex-colegas, Saboia deu um conselho. "Eu esperaria com tranquilidade. Pelo menos vou fazer isso."

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