Em livro, ex-chefe da CIA critica decisão de invadir Iraque

O ex-diretor da CIA George Tenet afirma em um novo livro que o governo de George W. Bush decidiu invadir o Iraque sem estudar a verdadeira necessidade da medida nem analisar alternativas, informa nesta sexta-feira, 27, o jornal The New York Times."Nunca houve um debate sério, que eu saiba, sobre a iminência da ameaça iraquiana" e também "não houve discussão significativa" sobre a possibilidade de evitar uma invasão, escreve Tenet em suas memórias, segundo o jornal nova-iorquino.À frente da principal agência de inteligência americana nos meses que precederam a invasão, Tenet foi por muito tempo responsabilizado pelo principal argumento que justificou a guerra: a informação, que depois se provou falsa, de que o governo de Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa. No livro, intitulado At the Center of the Storm (No centro da tempestade, em tradução livre), o ex-chefe da CIA lamenta que os informes da agência sobre o assunto não tenham sido mais nuançados. Ele atribui o erro ao fato de que dizer que o Iraque não possuía armas não convencionais parecia, à época, "implausível". O texto chegará às lojas na segunda-feira, 30.Ainda assim, Tenet afirma que a informação foi supervalorizada por membros da administração no momento em que a justificativa para a guerra foi apresentada ao público. O ex-diretor da CIA lembra com amargura como o vice-presidente, Dick Cheney, numa entrevista em setembro de 2006, afirmou por duas vezes que um comentário de Tenet sobre as supostas armas de destruição em massa no Iraque teria levado à invasão.Na ocasião, Cheney lembrou que, em reunião na Casa Branca em dezembro de 2002, Tenet utilizou a expressão "slam dunk" (algo como "certeza absoluta") para se referir à presença de armas de destruição em massa no Iraque. O vice-presidente deixou entrever que o argumento convenceu a Casa Branca a invadir o Iraque.O ex-chefe da CIA sustenta, no entanto, que a frase foi tirada de contexto e se referia na realidade à facilidade de convencer a sociedade americana da necessidade de invadir o Iraque e derrubar Saddam Hussein."Eu me lembro de pensar enquanto assistia ao programa: ´como se você (Cheney) precisasse que eu dissesse ´com certeza´ para te convencer a ir a guerra com o Iraque´", afirma Tenet no livro.Tenet se queixa de que, quando a situação no Iraque piorou após a invasão e a guerra ficou impopular, o governo fez dele um "bode expiatório".O mais alto ex-funcionário do governo americano a falar publicamente sobre a guerra reconhece ainda que se equivocou ao afirmar, em 2002, que o presidente iraquiano, Saddam Hussein, contava com armas de destruição em massa. Mas afirma ter acertado ao negar a existência de vínculos claros entre Iraque e Al-Qaeda, como pretendiam alguns altos funcionários do governo.O ex-diretor da CIA renunciou ao cargo em junho de 2004, em meio a tensões com Cheney, Paul Wolfowitz e a então Assessora de Segurança Nacional Condoleezza Rice.Texto ampliado às 16h44

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.