Em Madri, cubanos soltos pelo regime juram manter campanha por reforma

Na Espanha, pelo menos 10 dissidentes libertados pelo regime dos irmãos Castro definem Fariñas e as Damas de Branco como os grandes responsáveis pelo acordo entre a Igreja Católica e Havana; líderes espanhóis evitam críticas ao governo da ilha

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2010 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / MADRI

A Espanha recebeu ontem os primeiros sete dissidentes políticos de Cuba libertados após o acordo firmado entre o governo de Raúl Castro, a Igreja Católica e o governo espanhol. Em seus primeiros pronunciamentos após a chegada em Madri, os prisioneiros, membros do chamado Grupo dos 75, encarcerados na Primavera Negra de 2003, anunciaram a intenção de lutar no exterior pela democracia na ilha.

"Cuba merece a democracia", afirmou o jornalista Ricardo González Alfonso. Hoje, três novos detentos devem ser libertados.

Os primeiros seis dissidentes, Léster González, Omar Ruiz, Antonio Villarreal, Julio César Gálvez, José Luis García Paneque e Pablo Pacheco, acompanhados de seus parentes, chegaram em solo espanhol por volta das 13 horas (8 horas de Brasília) em um voo comercial. Uma hora depois, o sétimo membro, Ricardo González, juntou-se ao grupo. Todos haviam passado em Havana por um processo de entrevistas para a concessão de vistos de imigrantes, tratamento que, em termos diplomáticos, os diferencia do status de deportados.

Às 14h20, os sete ingressaram em uma sala de imprensa preparada pelo governo espanhol. Vestindo calças sociais, camisas e gravatas, demonstraram satisfação e união aos fotógrafos, erguendo as mãos, fazendo sinais de vitória e abraçando uns aos outros. Em seguida, Juan Pablo de Laiglesias, secretário de Estado para a América Ibérica, fez um breve discurso no qual evitou críticas ao regime cubano.

Então, os dissidentes puderam, enfim, ser ouvidos. Em pronunciamento, Julio Cesar Galvéz lembrou dos intelectuais que desde 2003 estão detidos e dos que permanecem encarcerados ou hospitalizados em Havana. Ele ainda destacou os nomes de Orlando Zapata, morto em 24 de fevereiro em decorrência de uma greve de fome, Guillermo Fariñas, atual símbolo da repressão em Cuba, e as Damas de Branco - grupo de mulheres parentes dos dissidentes -, definindo-os como grandes responsáveis pela libertação, ao lado da Igreja Católica.

Único a responder aos jornalistas, Ricardo González foi ainda mais claro em sua disposição de lutar pelo fim da ditadura, e descreveu a libertação como "um passo, mas não o último". "Uma palavra cabe a Cuba: mudança. Para mim e para os meus companheiros a mudança começa pela liberdade."

Mais três. Horas depois, o ministro das Relações Exteriores, Miguel Ángel Moratinos, anunciou ao Congresso a chegada a Madri de mais três dissidentes.

Suas identidades não foram informadas de forma oficial, mas o Estado apurou que se tratariam dos jornalistas Omar Rodríguez e Normaldo Hernández Gonzálvez e do médico Luis Milán. De acordo com a Arquidiocese de Havana, 20 dos 26 presos consultados manifestaram o desejo de se exilar na Espanha.

Libertados

Ricardo González:

Jornalista e representante da ONG Repórteres Sem Fronteiras

Omar Ruiz: Técnico em contabilidade

José Luis Paneque: Médico

Léster González: Padeiro

Antonio Villarreal: Ativista do Movimento Cristão de Libertação

Pablo Pacheco: Jornalista

Julio C. Gálvez: Jornalista

Omar Rodríguez: Jornalista

Normaldo Hernández González: Jornalista

Luis Milán: Ex-membro do Conselho Médico de Cuba e do Movimento Cristão de

Libertação

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