Arquivo pessoal
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‘Em Mandela, vi o ser humano, não um terrorista perigoso’

Carcereiro do líder da luta contra o apartheid conta como se tornaram amigos e diz que ele o incentivou a escrever livro

Entrevista com

Christo Brand, carcereiro de Nelson Mandela

Paulo Beraldo, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 05h00

No dia 11 de fevereiro de 1990, Nelson Rolihlahla Mandela, o ícone da luta antiapartheid deixava a prisão, após 27 anos atrás das grades. Três décadas após sua libertação, ainda ecoam histórias sobre os anos de cárcere do homem que colocou fim ao regime segregacionista sul-africano. 

Em seu primeiro dia de trabalho como carcereiro na Robben Island, ilha a leste da Cidade do Cabo onde ficavam os sul-africanos condenados à prisão perpétua, Christo Brand, então com 18 anos, ouviu dos colegas que Mandela era um dos prisioneiros “mais perigosos da história da África do Sul”. O ano era 1978. 

Mas o que Brand viu foi algo bem diferente. A maior parte dos prisioneiros políticos era de senhores amigáveis. De família rural africânder - descendente dos colonizadores holandeses -, ele também não acompanhava a política. “Nelson Mandela, para mim, era só mais um nome”, diz ele sobre o famoso prisioneiro que se tornou o primeiro presidente negro da África do Sul. 

Em 12 anos de convivência, carcereiro e prisioneiro se tornaram sólidos amigos. Brand até fez pequenos favores a Mandela, como levar livros a amigos. Os detalhes da relação entre os dois estão nas páginas do livro Mandela: Meu Prisioneiro, Meu Amigo, lançado em 2014. Aos 60 anos, Brand percorre o mundo para falar do amigo que lhe deu uma nova visão sobre sua nação. A seguir, os principais trechos da entrevista: 

Como foi seu primeiro encontro com Nelson Mandela? 

A primeira vez que o vi foi em Robben Island, em 1978, quando nos informaram que conheceríamos os maiores criminosos da África do Sul. Todos que deveriam receber sentença de morte foram enviados para lá. Mas o que encontrei foram apenas homens idosos, amigáveis, humildes e muito educados. Naquele tempo, eu ainda não sabia quem era Nelson Mandela. 

Quando percebeu quem realmente ele era?

Depois de um tempo trabalhando lá, comecei a ver o nome nos jornais e a entender sua luta. Ele também recebia muitas cartas e cartões, da África do Sul e de outros países. 

Quando se tornaram amigos? 

Teve um dia em que Winnie (então mulher de Mandela) trouxe um bebê a Robben Island. Era uma de suas netas. Quando ela entrou na cabine de visitação, não deixamos que levasse a criança para dentro, porque não era permitido. Então, o bebê ficou na sala de espera com uma mulher. Ao fim da visita, Mandela perguntou se podia tocar no bebê. Respondemos que não, mas ele insistiu. Um guarda ouviu aquilo e me mandou buscar o bebê rapidamente. Então, eu disse a Winnie que Mandela queria vê-la novamente. Quando ela entrou na cabine, eu falei para a senhora que segurava o bebê que eu queria ficar com ele um pouquinho. E assim levei a criança até Mandela e a colocamos em seus braços. Ele ficou surpreso. Pedimos que nunca contasse o fato a ninguém, pois poderíamos perder nossos empregos. Com lágrimas nos olhos, ele segurou a netinha e a beijou. Por muitos anos, nem Winnie soube disso, pois Mandela manteve o segredo. Foi naquele momento que ficamos próximos. Eu vi o ser humano, uma pessoa com sentimentos, com respeito, e não um terrorista perigoso como tinham dito. 

Também ensinou o idioma africâner a Mandela, certo? 

Sim, isso foi após a mudança para a prisão de Pollsmoor. Ali a comunicação era melhor que em Robben Island, era menos restrita. Mandela sempre estava estudando. Ele me pedia ajuda com cartas, textos e queria aprender a falar africâner. Eu levei materiais e o ajudei a falar o idioma. Quando ouvi seu primeiro discurso em africâner após a libertação, fiquei orgulhoso. O meu prisioneiro, que ajudei a estudar, estava falando a minha língua tão bem. 

Como era essa convivência? 

Havia dias em que eu entrava na cela dele e tomava café. Ele perguntava da minha família, e eu, sobre a saúde dele. Mandela sempre encorajava os guardas a estudarem. Ele acreditava muito que a educação faria da África do Sul um país melhor. Enviou até uma carta à minha mulher para que ela me encorajasse a estudar. Ainda tenho essa cartinha. 

Vocês também tinham alguns códigos, certo? 

Os prisioneiros eram monitorados. Às vezes, eu tinha um gravador comigo que registrava toda a conversa e transmitia para o comando da prisão. Então, eu mostrava para ele de alguma forma que não podíamos conversar sobre assuntos privados. Dizia, por exemplo, que não queria tomar café, que estava com pressa ou fazia alguns sinais, como tocar na minha orelha. 

Qual a principal lição que aprendeu com Mandela e gostaria de dividir?

A maior lição é que as pessoas merecem respeito e devem ter igualdade de oportunidades. Nunca vou esquecer o quanto ele era humilde e o quanto queria que as pessoas tivessem oportunidade de estudar. Sua mensagem era a de que negros e brancos podem dar as mãos e trabalhar juntos. 

Como foi a última conversa de vocês?

Foi uma conversa de dois amigos, alguns meses antes de ele morrer. Queria saber da minha família, das minhas coisas. Não falamos nada sobre a política da África do Sul.  

Por que o senhor decidiu escrever um livro sobre sua relação?

Mandela me incentivou muito. Ele dizia: nós dois viemos de áreas rurais, vivemos a discriminação, chegamos a Robben Island, ele como prisioneiro e eu como guarda, e as pessoas devem conhecer essa história que vivemos. Foi seu último desejo em relação a mim. 

 

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