Twitter/ Reuters
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Em manifesto, atirador da Nova Zelândia diz que diversidade no Brasil é razão de conflitos

Texto de 74 páginas publicado pelo principal suspeito dos ataques que mataram ao menos 49 em duas mesquitas detalha anos de radicalização e motivos para o crime

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2019 | 18h35

WELLINGTON, NOVA ZELÂNDIA  - Antes de o principal suspeito dos ataques que deixaram ao menos 49 mortos nesta sexta-feira, 15, em mesquitas da Nova Zelândia atacar a mesquita Al Noor, ele publicou no Twitter um manifesto de 74 páginas justificando suas ações e afirmando que países onde existe diversidade, existe o fracasso. Para exemplificar ele cita o Brasil

O texto intitulado "The Great Replacement" ("A Grande Substituição", em tradução livre) faz referência a uma teoria originada na França de acordo com a qual "os povos europeus estão sendo substituídos por populações de imigrantes não europeus". O manifesto detalha dois anos de radicalização e preparativos, afirma que os principais momentos da radicalização do atirador foram o fracasso da líder de ultra-direita Marine Le Pen nas eleições francesas de 2017 e a morte da menina sueca Ebba Åkerlund de 11 anos em um atentado a bomba em abril de 2017 em Estocolmo.

O atirador foi descrito como um "violento terrorista extremista de direita" australiano pelo primeiro-ministro australiano Scott Morrison. As contas no Twitter e no Facebook onde o manifesto foi postado foram desativadas. 

Em um dos capítulos do manifesto chamado "Diversidade é fraqueza", o autor do massacre na mesquita Al Noor questiona o motivo de "políticos, educadores e mídia" repetirem que "a diversidade é nossa principal força". 

"As nações 'diversificadas' ao redor do mundo são palcos de conflitos sociais, políticos, religiosos e étnicos intermináveis", afirma o atirador, citando EUA e Brasil como exemplos disso. "Brasil com sua diversidade racial é completamente fraturado como nação, onde as pessoas não podem se separar e se segregar das outras quando querem".

Modus Operandi.

A forma como agiu e os aparentes motivos do ataque podem ter a marca do extremista de direita norueguês Anders Behring Breivik, que parece ter inspirado muitos terrorista racistas e supremacistas ao redor do mundo.

Massacre em massa, vítimas representantes do multiculturalismo, um "manifesto" publicado no momento do massacre justificando uma ideologia semelhante. Os ataques de Christchurch assemelham-se fortemente com os atentados cometidos por Breivik.

No manifesto, o atirador de Christchurch diz que "foi realmente inspirado pelo Cavaleiro Justiceiro Breivik", usando uma fraseologia semelhante à do extremista norueguês. "Tive apenas um breve contato com o Cavaleiro Justiceiro Breivik e recebi uma bênção para minha missão depois de entrar em contato com seus irmãos cavaleiros", escreveu ele.

Breivik matou 77 pessoas em 22 de julho de 2011, primeiro explodindo uma bomba perto da sede do governo em Oslo, e depois abrindo fogo contra uma acampamento da Juventude Trabalhista na ilha de Utøya.

Para Tore Bjørgo, diretor do Centro de Pesquisa sobre Extremismo da Universidade de Oslo, "claramente muitas das mesmas ideias estão por trás" das duas tragédias. "A ideia de que a civilização europeia está ameaçada pela imigração em geral e pela imigração muçulmana em particular, e é legítimo que alguns recorram à violência extrema para parar isso", explicou à AFP.

"O manifesto é um pouco confuso, em muitos aspectos. E está fortemente centrado no que chama de genocídio dos brancos via imigração em massa", aponta o pesquisador sueco sobre terrorismo Magnus Ranstorp. "É a mesma terminologia que Breivik", disse à agência sueca TT.

Vingança.

Ebba Åkerlund, 11 anos, morreu no dia 7 de abril de 2017, quando foi atropelada por um caminhão em uma rua comercial de Estocolmo, por Rakhmat Akilov, um imigrante do Uzbequistão. O atirador da Nova Zelândia deixou claro em seu manifesto que queria "vingar Ebba Åkerlund".

Ele também escreveu o nome da menina em uma das armas usadas no massacre. A menina foi morta ao sair da escola e a caminho de encontrar a mãe no centro de Estocolmo. O autor do atentado foi condenado à prisão perpétua em junho de 2018. Ele havia prometido fidelidade ao grupo Estado Islâmico (EI). / AFP

 

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