Em março de 2006, um certo ´maio de 68´

De um lado, a "ordem estabelecida" - as leis do mercado de trabalho, o governo. Do outro, uma juventude que parece cada vez mais insatisfeita com um futuro traçado por políticas que não correspondem com seus anseios. Como cenário, algumas das mais respeitadas universidades francesas. Uma reedição "pós-moderna" de um dos mais importantes eventos político-culturais do século passado, o Maio de 1968? Até certo ponto, pode-se dizer que sim. Os protestos que desde o início da semana têm mobilizado milhares de estudantes franceses contra o projeto "Contrato Primeiro Emprego", encabeçado pelo primeiro-ministro francês, Dominique de Villepin, podem não ter a amplitude da radical ruptura entre "novo" e "velho" que marcou as manifestações estudantis na França no final do anos 60. Afinal, o que se reivindica agora é algo muito mais objetivo do que as transformações comportamentais que marcaram os protestos de outrora: para os estudantes, o projeto, que permite a demissão de funcionários menores de 26 anos sem o pagamento de benefícios, deve ser retirado. Mas, mantidas as devidas proporções, o que se observa hoje tem lá seu charme revolucionário. Pelo menos é o que conclui o professor de filosofia franco-brasileiro Eduardo Rihan Cypel, de 30 anos, que participou dos protestos desta quinta-feira junto a colegas do Instituto de Estudos Políticos de Paris, conhecido também como "Sciences Po". Cypel, um ex-aluno do instituto, acha que, embora o maio de 1968 tenha tido proporções e conseqüências muito maiores do que este "março de 2006", ambos eventos possuem características que, no mínimo, coincidem. E a primeira delas é exatamente essa contraposição entre a "ordem" estabelecida e os anseios da juventude. "A comparação que pode ser feita é que em 1968 a juventude estava muito entediada com o poder velho, que não entendia as grandes mutações dos anos 1960. Hoje, desde a vitória da direita em 2002 (na França), a juventude só vem perdendo terreno. E agora começa a se manifestar. É uma espécie de insurreição contra um governo que não os entende e não os quer entender", ele afirma. Mas ressalva: "Claro que as proporções não são as mesmas. Vamos ver o que vai acontecer." Sábado de protestos Cypel se refere aos protestos marcados para este sábado, que, segundo os organizadores - na sua maioria associações estudantis e sindicais como a União Nacional dos Estudantes da França, a Unef - deve reunir mais de 1 milhão de pessoas em todo o país. Para ele, as grandes demonstrações populares contra o projeto darão a vitória aos estudantes. "Eu acho que as manifestações conseguiram matar esse projeto. Ele não tem mais cabimento hoje em dia. Está trazendo muitos conflitos na sociedade francesa." E, é bom ressaltar, o objetivo dos estudantes mais moderados não é a total anulação do projeto, de forma a ignorar o problema do desemprego no país. "As propostas são múltiplas. Mas a primeira coisa que os estudantes e organizações sindicais querem é a retirada do CPE, para então começarmos a negociar. Porque o primeiro ministro quis ir rápido, desprezando totalmente a negociação coletiva", diz o ex-estudante de política. Sobre as manifestações desta quinta-feira, Cypel conta que o quebra-quebra que marcou os últimos momentos dos protestos foram obra de arruaceiros profissionais, e que não era de violência o clima nas primeiras horas do encontro. Periferia apóia estudantes Cypel ressalta também que, apesar do que vem sendo publicado em boa parte dos meios de comunicação, nem todos os manifestantes eram da "elite" francesa - os bem educados universitários do país. Ele afirma que muitos manifestantes eram de origem imigrante, fato que, para Cypel, pode ser interpretado como uma ponte para os protestos encabeçados pelos jovens das periferias parisienses que aconteceram entre outubro e novembro do ano passado. "É claro que os jovens da preferia eram minoria nos protestos. Pra começar, pouca gente da periferia é estudante. Mas as pesquisas que saíram nesta sexta-feira mostram que os jovens da periferia estão totalmente solidários aos protestos. Eles não acreditam nem um pouco que o projeto do Villepin irá ajudar a enfrentar a discriminação que eles sofrem." Na blogosfera Mas não são todos os estudantes que apóiam os protestos. A internet, que também se tornou um campo de discussão entre aqueles que são contra e os que apóiam o Contrato Primeiro Emprego(CPE), tem servido de foro para as mais distintas opiniões sobre o assunto. Os blogs que defendem o CPE trazem matérias de jornais citando a virada violenta dos protestos e ressaltam as características positivas do projeto. Eles afirmam que a medida realmente contribuirá para a criação de empregos. Um dos blogs, o "Sim ao CPE", anuncia um ato contra o bloqueio das faculdades, marcado para o domingo, em frente à prefeitura de Paris. O bloqueio também é um dos assuntos mais recorrentes nos fóruns de discussão. Muitos não discordam das exigências dos estudantes mas são contra o fechamento das universidades. No blog "Movimento Anti-CPE", de uma aluna da universidade Paris 3, ela defende que os bloqueios são a única maneira dos estudantes serem ouvidos. "O bloqueio chama a atenção de pessoas que normalmente não se interessariam pelo movimento, fazendo com que ele dê resultados verdadeiros". Calendário Os estudantes que exigem a retirada do projeto apresentam suas reivindicações e aproveitam o espaço virtual para organizar as mobilizações estudantis e informar sobre os locais dos protestos. Segundo o blog "Le Gauche", estão previstas para o sábado manifestações em mais de trinta cidades da França. O site enumera os horários e endereços em que os protestos ocorrerão.

Agencia Estado,

17 Março 2006 | 21h17

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