Stefano Rellandini/Reuters
Stefano Rellandini/Reuters

Em Medellín, papa pede à Igreja que 'promova reconciliação'

A visita a essa cidade colombiana, antiga capital do narcotráfico, tem um significado especial para Francisco, porque foi nela onde a hierarquia católica da América Latina se comprometeu, em 1968, com a chamada 'opção preferencial pelos pobres'

O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2017 | 17h07

MEDELLÍN - Diante de 1 milhão de fiéis reunidos em Medellín, o Papa Francisco pediu neste sábado à Igreja que se renove, deixe a zona de conforto e promova a reconciliação em países como a Colômbia, que tentm superar um conflito armado sangrento de cinco décadas.

"Como Jesus 'chacoalhava' os doutores da lei para que saíssem da inércia, agora também a Igreja é 'chacoalhada' pelo Espírito para que deixe sua zona de conforto e seus apegos. A renovação não nos deve causar medo", disse o pontífice durante a missa em Medellín, antiga capital do narcotráfico.

Francisco, que celebrou hoje sua terceira homilia na Colômbia, pediu aos curas e padres que se envolvam, "embora, para alguns, isso pareça se sujar ou se manchar".

"A Igreja na Colômbia está convocada a se empenhar com mais ousadia na formação de discípulos missionários", afirmou o papa, de 80 anos."Nos é pedido crescer em ousadia, em uma coragem evangélica que brota do saber que são muitos os que têm fome, fome de Deus, fome de dignidade, porque foram despojados".

A multidão respondeu com aplausos à pregação do primeiro papa jesuíta e latino-americano.

"A humildade de Francisco é um exemplo, e a Igreja deve se comprometer mais, porque o comportamento (do papa) tem credibilidade", disse à agência France-Presse Mónica Arias, 50 anos, que viajou a Medellín de Apartadó, uma região castigada pelo conflito.

A visita a Medellín tem um significado especial para o papa, porque foi nessa cidade onde a hierarquia católica da América Latina se comprometeu, em 1968, com a chamada "opção preferencial pelos pobres".

Francisco aproveitou sua passagem por Medellín para reforçar seu apelo ao clero na Colômbia para que apoie a reconciliação após o acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e o diálogo em curso com o Exército de Libertação Nacional (ELN), última guerrilha ativa no país.

Na quarta-feira, o papa recordou aos bispos que não são "políticos", e sim pastores, em referência às críticas da Igreja local ao pacto com os rebeldes. 

Jorge Mora, um camponês de 65 anos que viajou quatro horas de ônibus para ver o papa, disse também acreditar que a Igreja deve apoiar o esforço de paz do presidente Juan Manuel Santos, duramente criticado por setores da direita por suas "concessões" aos rebeldes comunistas.

"O papa vem para ver se resolve esta questão da paz", disse Mora, que teve dois sobrinhos mortos por paramilitares. 

Com 2 milhões de habitantes, Medellín não é apenas uma cidade moderna e de vocação católica que tenta superar anos de violência do narcotráfico. É também uma das que mais rejeita a política de paz de Santos. 

O presidente enfrenta a oposição sem trégua de seu antecessor, Álvaro Uribe, um líder de direita muito popular na Colômbia que fracassou em sua tentativa de derrotar militarmente as Farc, apesar dos duros golpes que impôs aos rebeldes. Agora, Uribe acusa Santos, seu ex-ministro da Defesa, de entregar o país aos rebeldes.

Ausente nas duas missas anteriores, Uribe assistiu ao papa em Medellín como "mais um peregrino", como declarou à imprensa. 

Francisco tem apoiado claramente os esforços de paz de Santos, mas também exige "verdade e justiça" para as vítimas do conflito, com cujos representantes se reuniu na sexta-feira, em Villavicencio.

Como partido legal, as Farc se submeterão a uma justiça especial, que prevê que os responsáveis por crimes atrozes, incluindo agentes do Estado, não sejam presos caso confessem tais crimes, indenizem as vítimas e prometam jamais exercer a violência. 

Em sua visita à Colômbia, que termina neste domingo em Cartagena, Francisco insiste em sua mensagem de paz e reconciliação, no momento em que o país está em vias de encerrar o último conflito armado das Américas, que deixou mais de 7 milhões de vítimas, entre mortos, desaparecidos e deslocados, em mais de meio século. / AFP 

 

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