AFP PHOTO / Belga
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Em meio a ameaças externas, muitos belgas preferem separar o país

A imigração é um tema polêmico na Bélgica e em outros lugares da Europa. Entre 2000 e 2010, o país aceitou mais imigrantes do que o Canadá, que tem o triplo de sua população

Thomas Erdbrink - THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

19 Abril 2016 | 12h10

ANTUÉRPIA, BÉLGICA – Normalmente, Dieter Moyaert e seus amigos fãs de futebol gostavam de se divertir no Café Royal, bar de futebol dominado por torcedores roxos do Royal Antwerp, para acompanhar as partidas e beber cervejas. Neste fim de semana em particular, no entanto, as coisas estavam diferentes. Visível à distância, os refletores do estádio estavam ligados e uma partida decisiva contra o Lierse estava para começar. Contudo, poucas pessoas na cidade em que se fala flamengo, no norte do país, pareciam realmente empolgadas.

Foi logo depois dos ataques terroristas duplos em Bruxelas que políticos da capital cancelaram uma marcha em protesto contra o medo por temor de novos ataques. Aquilo era mais do que Moyaert e outros pretensos "hooligans" do grupo conhecido como Antwerp Casuals poderiam aguentar. Durante entrevista recente, Moyaert disse ter convocado os líderes dos principais grupos de torcedores rivais e, juntos, decidiram que no dia da marcha cancelada iriam para a capital Bruxelas, onde predomina o idioma francês.

Vestidos de preto e gritando insultos contra o Estado Islâmico, chegaram tremulando a bandeira. Não o leão negro de Flandres, enfatizou Moyaert, mas a bandeira preta, amarela e vermelha da Bélgica. "Foi uma coisa sem precedentes. Nosso recado era: 'Se torcedores podem se unir sob a bandeira nacional, o país inteiro pode fazer o mesmo'. Pensávamos que seríamos recebidos como heróis", disse Moyaert. Mas estavam errados.

Esquerdistas os viram se aproximando e começaram a gritar alertas de que os torcedores eram fascistas e, assim, começaram as brigas. A polícia de choque apareceu e a imprensa internacional noticiou os torcedores neonazistas. Mais uma vez, a Bélgica, um dos países mais divididos e problemáticos da Europa, parecia um caos.

"É difícil unir o país, mas eu ainda acredito que podemos continuar unidos", disse Moyaert. Questionado sobre os outros do seu grupo, ele fez uma pausa. "O que meus amigos acham? Esqueça, eles querem a independência."

Os ataques a Bruxelas abalaram a população de Flandres, como em qualquer outro lugar do país. Porém, após algumas semanas, estão sendo feitos questionamentos profundos: se o hesitante governo federal, dominado pelos franceses, seria capaz de lidar com os desafios difíceis da imigração e do terrorismo; ou, se no fim das contas, não é melhor para o povo flamengo se tornar uma nação independente tendo Antuérpia como capital.

Um monumento óbvio à independência flamenga, a Torre de Ferro, se eleva 84 metros acima da paisagem plana da porção ocidental de Flandres, na cidade de Diksmuide, e traz em seu topo letras grandes: uma abreviação de "todos por Flandres – Flandres por Cristo".

Ela foi construída ao final da Primeira Guerra Mundial, no começo do movimento nacional flamengo, quando soldados que voltavam das trincheiras lamacentas e dos campos de batalha tingidos de sangue se recusaram a aceitar o status de domínio francês anterior à guerra. Em 1946, a torre foi explodida por pessoas desconhecidas, embora muitos suspeitem de grupos de pessoas de origem francesa. Uma torre mais alta foi elevada em seu lugar, ainda que a pressão do separatismo flamengo tenha se reduzido lentamente.

A perspectiva de divisão nunca está distante da consciência nacional, principalmente em função de o principal partido político da nação, a Nova Aliança Flamenga, estar dedicado a uma secessão pacífica e gradual.

A Bélgica nem sequer era um país até 1830, quando uma rebelião no sul da Holanda, apoiada pela França, levou à independência. O francês se tornou o idioma principal, e a estrutura de Estado resultante também era favorável a quem fosse da Valônia, a região sul da nação na qual se fala francês. Os falantes da língua flamenga, agora uma maioria de 60%, eram considerados rústicos pelos de língua francesa, que julgavam quase bárbara sua cultura do cozido de batata.

Além de estar dividida entre falantes de flamengo e francês, com um pouco de alemão no meio, a Bélgica não conta com símbolos nacionais. Existe o "Atomium", estrutura cromada feita para a Feira Mundial de 1958; o "Manneken Pis", estátua de um garotinho urinando; e chocolate, cervejas produzidas em abadias e a seleção nacional de futebol, os Diabos Vermelhos. E só isso, como concordaria a maioria dos belgas, flamengos ou valões.

Os novos desafios para a unidade belga eram visíveis dentro da Torre de Ferro em um dia recente. Na base há uma pequena homenagem a Bart Migom, estudante de 21 anos de Diksmuide que morreu nos atentados a bomba no aeroporto de Bruxelas. Ele estava indo visitar sua namorada americana na Georgia.

"Durante as próximas eleições veremos outra guinada à direita. As pessoas estão revoltadas e se sentem impotentes depois dos ataques, então podemos esperar que algumas votem em partidos de extrema direita", afirmou Koen Coupillie, líder do escritório local da Nova Aliança Flamenga.

Flandres já deu uma guinada à direita na última década, com a bancada de Coupillie conquistando a maioria dos votos e se tornando, em 2014, o maior partido político belga. Do outro lado não houve mudança política. O Partido Socialista há décadas atrai a maioria dos votos de quem fala francês. "Sua solução para tudo é completamente diferente. Eles só querem manter as velhas estruturas no lugar, enquanto nós desejamos reformar e melhorar", disse Coupillie, 32 anos, a respeito do Partido Socialista.

De pé no topo da torre, que oferece uma vista panorâmica das trincheiras preservadas da Primeira Guerra Mundial, Coupillie apontou a localização de um centro para quem busca asilo, onde 200 refugiados logo seriam abrigados. "Tivemos uma reunião na cidade. As pessoas estavam tranquilas, mas vai levar muito tempo para que aceitem os estrangeiros, eu espero", contou ele.

A imigração é um tema polêmico na Bélgica e em outros lugares da Europa. Entre 2000 e 2010, o país aceitou mais imigrantes do que o Canadá, que tem o triplo de sua população. Mais de 25% dos 11 milhões de habitantes da Bélgica têm origem estrangeira, e muitos deles, de antigas colônias francesas como o Marrocos, falam francês.

Na feira livre de Aalst, cidade flamenga próxima a Bruxelas, muitos afirmaram que a integração de muçulmanos na Bélgica fracassou, jogando a culpa na elite dominada pelos franceses na capital. "Nós vivemos separados. Não nos encontramos, não conversamos. Não está funcionando", disse Jos Wauters, funcionário público da vizinha cidade de Affligem, conhecida pela cerveja produzida em uma abadia próxima.

Ele culpou os partidos esquerdistas franceses que há muito tempo proíbem leis nacionais tornando obrigatórios os cursos de idiomas. "Enquanto isso, continuaram convidando as pessoas a virem. É claro que agora temos problemas enormes." A mulher concordou com a cabeça, embora, quando falou, seu sotaque revelasse a origem valona. "Nós todos podemos viver juntos, flamengos e valões, mas somente em Flandres", disse ele, sorrindo e apontando para a mulher.

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