AFP PHOTO / OSSERVATORE ROMANO
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Em meio a ataques, Francisco condena violência de indígenas radicais no Chile

Em uma semana, mais de dez igrejas católicas, uma escola e três helicópteros de madeireiras foram incendiados no país; região visitada pelo pontífice está no centro de uma disputa entre grupos da etnia mapuche e o governo chileno

O Estado de S.Paulo

17 Janeiro 2018 | 21h50

TEMUCO, CHILE - O papa Francisco condenou nesta quarta-feira, 17, a violência de indígenas no Chile. A passagem do pontífice por Temuco, no sul do país, foi marcada por uma série de ataques atribuídos a radicais mapuches, etnia indígena que reivindica direito à terra. Ao menos duas igrejas católicas e uma escola foram incendiadas, assim como três helicópteros usados por empresas madeireiras. Em uma semana, mais de dez templos cristãos foram atacados.

Nenhum grupo assumiu a autoria dos ataques dos últimos dias, mas, segundo o promotor Enrique Vásquez, investigadores encontraram na igreja e na escola incendiadas ontem na cidade de Collipulli cartazes e panfletos com mensagens que exigiam a libertação de prisioneiros mapuches. Em Curanilahue, onde os helicópteros foram incendiados na noite da terça-feira, folhetos pró-mapuche também foram encontrados. 

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A notícia do último ataque incendiário, ocorrido em uma igreja de Panguipulli, 515 quilômetros ao sul de Santiago, foi revelada enquanto Francisco rezava a missa no Aeródromo de Maquehue, em Temuco, capital da região de La Araucanía, uma das mais pobres do Chile. Segundo o general Diego Olate, um panfleto também foi encontrado no local, mas o militar não deu mais detalhes.

Repressão

Atentados de indígenas radicais - contra madeireiras, propriedades de descendentes de colonos europeus, maquinários agrícolas e caminhões - são comuns nos arredores de Temuco. A região de La Araucanía está totalmente militarizada, com dezenas de empresas sob vigilância 24 horas. 

A repressão é constante contra os indígenas, cujas casas são invadidas por policiais que quebram seus móveis e já chegaram a atacar com gás lacrimogêneo o interior de creches que cuidam de crianças mapuches.

Diferentemente dos casos de abuso sexual de religiosos, o tema indígena já estava na pauta da viagem de Francisco ao Chile e ao Peru, onde a chegada do papa é esperada para esta quinta. O pontífice tem interesse especial sobre a questão e espera aproveitar o giro latino-americano para preparar o terreno para um grande encontro eclesiástico, no ano que vem, sobre os povos a Amazônia.

Estima-se que cerca de 2 mil comunidades mapuches - com cerca de 700 mil pessoas - vivam no Chile pacificamente, à espera de que o governo lhes devolva pequenas porções de terra. Organizações radicais dos indígenas, porém, exigem a devolução total de seu território ancestral.

Em sua homilia na base área de Temuco, que além de se encontrar nas terras disputadas entre os mapuches e o governo chileno serviu de centro de detenção e tortura da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), Francisco denunciou o uso da violência para a obtenção de ganhos políticos. 

Dirigindo-se às cerca de 150 mil pessoas que compareceram à missa campal, dedicada também às vítimas do regime militar, o papa pediu diálogo em relação à causa mapuche.

“Oferecemos esta missa para todos aqueles que sofreram e morreram – e para aqueles que suportam diariamente a carga de muitas dessas injustiças”, afirmou o pontífice.

Após a cerimônia, o papa almoçou com oito mapuches, um descendente de colonos suíços e alemães, uma vítima da violência na região e um imigrante haitiano. 

A líder mapuche, Francisca Linconao, acusada de participação no assassinato de um casal de agricultores de origem europeia, em 2013, tentou sem sucesso entregar uma carta a Francisco, mas o papamóvel não parou quando passou pela militante, na saída da missa. Nesta quinta, o papa visita Iquique, no norte do Chile, onde abordará a questão dos imigrantes. Depois, seguirá para o Peru.

Ameaças

O governo do Peru determinou ontem um reforço de segurança para a visita do papa Francisco - cuja chegada ao país é prevista para esta quinta - acionando mais de 16 mil policiais, militares e agentes de inteligência na capital, Lima, e nas cidades de Trujillo e Puerto Maldonado, por onde o pontífice deve passar até o domingo, quando retorna ao Vaticano.

Segundo a imprensa do Peru, uma freira da Nunciatura Apostólica atendeu a um telefonema, dias atrás, de uma mulher afirmando que o pontífice sofreria um atentado terrorista em Trujillo, no norte do país, cidade que Francisco visitará no sábado. As autoridades investigam a ameaça.

O chefe de polícia da região de Trujillo, o general César Vallejos, informou nesta quarta que “várias ameaças” contra o pontífice feitas pela internet “estão sendo analisadas pelo pessoal de inteligência e pela direção contra o terrorismo”.

“Membros de diferentes unidades da polícia e dos órgãos de inteligência do Ministério do Interior estão prontos para evitar qualquer tipo de ameaça que possa se apresentar nas atividades programadas pela chegada do papa”, declarou ontem o governo peruano. Franco-atiradores também serão acionados

A polícia iniciou nesta quarta o reforço de segurança em Igrejas Católicas. Cerca de 8 mil policiais e militares farão a segurança da missa campal prevista para o domingo na base aérea de Las Palmas, em Surco, no sul de Lima. / AP, EFE e AFP

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