Dennis M. Rivera Pichardo/AP
Dennis M. Rivera Pichardo/AP

Em meio à crise de sucessão, Porto Rico celebra queda de governador

Ao deixar o cargo, conforme anunciou que faria no dia 24, Rosselló anunciou que Pedro Pierluisi o sucederia, o que instalou um impasse político no território

Beatriz Bulla / Enviada especial a San Juan , O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2019 | 20h06

Com contagem regressiva, música e espumante nas mãos, os porto-riquenhos esperaram ansiosos pela chegada das 17 horas desta sexta-feira, 2, quando se tornou efetiva a renúncia do governador Ricardo Rosselló, depois de doze dias de intensos protestos. 

Mas, diferente de uma festa de réveillon, quando chegou o horário, San Juan não sabia se a nova fase também havia chegado. Diante de uma crise na sucessão de Rosselló, os porto-riquenhos não sabiam o que aconteceria com o governo de Porto Rico a partir das 17h01.

Ao deixar o cargo, conforme anunciou que faria no dia 24, Rosselló anunciou que Pedro Pierluisi o sucederia, o que instalou um impasse político. O nome escolhido por Rosselló não conseguia convencer o Legislativo a confirmar sua nomeação como secretário de Estado, o que o faria entrar na linha de sucessão.

Pouco antes das 16h, a Câmara confirmou Pierluisi no cargo, mas o Senado não. Ele tomou posse, mas a votação entre os senadores, que oferecem resistência ao nome do advogado, deve acontecer somente na quarta-feira. 

Pela Constituição, sem secretário de Estado, quem assume o posto é a secretária de Justiça, Wanda Vasquez. Mas Wanda já havia rejeitado assumir o governo ao entrar na mira das manifestações contra corrupção. 

Nas ruas, não importava como a troca seria legitimada, nem que as discussões na Câmara tenham sido feitas a portas fechadas, mas sim que a mudança fosse concretizada.

Pierluisi é ex-representante do território de Porto Rico no Congresso dos EUA e advogado de um escritório americano. 

Há chance ainda de que o caso vá parar na Justiça, diante da ausência de confirmação do nome pelo Senado, o que pode arrastar o imbróglio. 

Na entrada do Palácio Fortaleza, o ritmo era de festa, mas não de alívio para o próximo governador. Alguns manifestantes seguravam cartazes chamando o novo governador de “lobo em pele de ovelha”.

Os protestos, desde o início, foram descentralizados e, por isso, tão populares. Sem um líder para anunciar o que acontecia dentro do Palácio Fortaleza, a poucos metros dali, restou aos manifestantes o celular. 

Olhos na tela para checar Whasttaspp, Facebook, Twitter e Messenger. Lives eram feitas no Instagram registrando a participação no episódio histórico – e selfies, muitas selfies. 

É certo dizer que a história da queda de Rosselló passa pelos celulares. O estopim da insatisfação dos porto-riquenhos foi o vazamento de um chat no Telegram em que o governador conversava com sua cúpula em mensagens de teor misógino, homofóbico e de escracho com parte da população – adversários políticos, aliados e até os mortos no Furacão Maria, que assolou a ilha em 2017 e deixa até hoje rastros de destruição.

Foi também pelos celulares que a população se organizou para os maiores protestos da história recente da ilha. A revolta contra o governador não é limitada ao “chat gate”, como chamam o caso. 

Os porto-riquenhos estão fartos de uma vida de necessidades, com escolas públicas sem material escolar para os alunos e casas ainda destruídas pelo furacão, em uma região que decretou falência em 2017 e tem 46% dos cidadãos vivendo na pobreza. 

Eles ficaram mais irritados ainda com a denúncia de que seis integrantes do governo desviaram US$ 15 milhões dos fundos que iriam para assistência após o furacão.

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