Em meio à crise, o Congresso agora lidera

O sonho da grande barganha sobre o orçamento morreu na sexta-feira e a aparição de Obama na TV levou à união dos membros democratas e republicanos da Casa, que negociam entre si

David Brooks, The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2011 | 00h00

Algumas pessoas gostam de metas ambiciosas. No início dessa confusão da crise da dívida, achávamos que seria possível chegar a uma grande barganha. O acordo influiria profundamente no problema do endividamento dos EUA, a começar pela reforma das dotações orçamentárias. E envolveria um montante da receita que permitiria evitar cortes arrasadores dos programas nacionais.

A grande barganha renderia óbvios benefícios políticos. O presidente Barack Obama mostraria aos independentes que pode se aproximar do centro. Os republicanos poderiam gabar-se de uma grande redução da interferência do governo.

Infelizmente, o sonho da grande barganha morreu na noite de sexta-feira por três razões. Primeiramente, seria sempre difícil conseguir o número necessário de votos no Congresso. Os republicanos não queriam aumentos dos impostos. Os democratas não queriam cortes de verbas.

Em segundo lugar, o processo de negociação usado pela Casa Branca não foi o mais adequado. Nem o presidente Obama nem o presidente da Câmara redigiram e divulgaram suas posições para a negociação. Tudo foi misterioso, instável, escorregadio. Um dia o presidente concordava com um aumento de US$ 800 bilhões da receita; no dia seguinte, ele pedia mais US$ 400 bilhões. Os cortes dos gastos que deveriam fazer parte do pacote de repente pareciam algo sem valor. Os parceiros das negociações desapareceram.

Era extremamente difícil descobrir quem exatamente oferecia o quê. Os democratas no Congresso não foram mantidos a par do que se passava e compreensivelmente começaram a desconfiar. Foi toda uma história de equívocos, sentimentos feridos e de derrota.

Em terceiro lugar, o presidente perdeu sua costumeira calma. Obama nunca deveria ter ido para a frente das câmeras minutos depois de as conversações terem fracassado, na noite de sexta-feira. Sua aparição foi impregnada daquele ar condescendente do tipo: "Eu sou a única pessoa madura em Washington", que deixa todo mundo louco. Obama deu uma aula para os líderes da Câmara e do Senado naquele tom professoral que o diretor do colégio usaria com jovens delinquentes. Ele falou de telefonemas não respondidos e de ter sido deixado no altar, personalizando a questão como alguém que tivesse sido desprezado no baile de formatura.

Mudança. A aparição de Obama na sexta-feira teve uma profunda consequência inesperada. Uniu os membros do Congresso. Eles decidiram assumir o controle da situação. A Casa Branca ficou em segundo plano. Os líderes democratas e republicanos estão negociando diretamente entre si.

A atmosfera mudou. Agora um acordo parece mais provável. Só não será tão significativo como os grandes negociadores queriam inicialmente.

John Boehner e Harry Reid continuarão brigando verbalmente. Mas suas provocações obedecem a um script, sem sentimentos feridos. Esses velhos profissionais são perfeitamente capazes de rebater insultos estereotipados pela manhã e depois sair para negociar entre si, à tarde.

Além disso, o processo de negociação mudou. Na segunda-feira, tanto Boehner quanto Reid apresentaram propostas. Os principais pontos foram redigidos e estão disponíveis para quem quiser ter acesso a eles. Cada lado não só apresentou suas posições, como indicou onde seria possível encontrar futuros acordos.

Boehner divulgou um projeto que prevê limites de gastos obrigatórios com um mecanismo de execução para garantir que os cortes sejam reais.

Reid divulgou um projeto que envolve maiores cortes de gastos no longo prazo, com a previsão de que grande parte do trabalho pesado seria feita por uma seleta comissão bipartidária. Esses dois planos cuidadosamente coordenados são diferentes, mas se harmonizam naturalmente.

Com um pouco de imaginação, é fácil perceber como poderiam se fundir para dar alguma coisa a cada um. Os republicanos teriam a garantia de algumas reduções dos gastos. Os democratas dos Estados mais decisivos fariam campanha para conseguir uma redução nominal da dívida de muitos trilhões de dólares, protegendo ao mesmo tempo as verbas já determinadas. Os republicanos só votariam sobre a elevação do teto da dívida quando tivessem a garantia de alguns cortes das despesas. Os democratas poderiam contar a redução dos custos das guerras do Iraque e do Afeganistão como parte dos cortes dos gastos.

Não se sabe ao certo se um acordo adiaria de fato a próxima briga pelo teto da dívida até depois das eleições de 2012, mas isso também talvez seria contornado, principalmente se os democratas estivessem dispostos a conceder aos republicanos maiores cortes dos gastos e uma votação da emenda sobre o orçamento equilibrado no Senado.

O que vemos, é que, por um lado, está havendo um surto de sensatez desde que o Congresso assumiu o controle. Por outro, o acordo que as duas partes estão preparando não chega ao corte de quase US$ 4 trilhões que, segundo muitos, seria necessário para impedir o rebaixamento da dívida americana.

Esse deveria ser um momento humilhante para a Casa Branca, e talvez um aprendizado salutar. Outras pessoas, que estão em Washington há muito tempo, sabem como funciona o jogo. Graças aos seus esforços, será possível chegar a alguma redução da dívida, mas nada muito significativo e capaz de dar início a uma transformação. Obama não obterá seu impulso eleitoral do centro. Os republicanos não precisarão brigar contra os aumentos dos impostos. Os democratas não terão de brigar contra a reforma das adjudicações. A velha guarda ganhou. O discurso de campanha de Obama pela televisão, na noite de segunda-feira, ficou ultrapassado. A ação partiu do Capitólio. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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