AFP / HECTOR RETAMAL
AFP / HECTOR RETAMAL

Em meio à crise política, Haiti se aproxima de governo transitório

Medida é endossada pela oposição, que prometeu ir às ruas se o atual presidente não deixar o poder no dia 7; governo interino teria missão de organizar novas eleições

O Estado de S. Paulo

27 Janeiro 2016 | 09h46

PORTO PRÍNCIPE - O Haiti continua vivendo nesta quarta-feira, 27, um clima de grande incerteza política, a apenas 11 dias do fim do mandato do atual presidente, Michel Martelly, cujo sucessor não foi eleito em razão do adiamento das eleições em duas ocasiões.

Setores da oposição são favoráveis a um governo de transição a partir do próximo dia 7 de fevereiro, quando acaba o mandato de Martelly, impedido constitucionalmente de continuar como presidente.

Entre os nomes cogitados para liderar este governo interino está o do presidente da Corte Suprema de Justiça, Jules Cantaves, do titular do Senado, Jocelerme Privert, e do atual primeiro-ministro, Evans Paul. Independente de quem for escolhido - caso a proposta de governo interino seja adotada -, a principal missão será resolver a crise eleitoral e organizar eleições.

Outra alternativa expressada por setores políticos é a possibilidade de que Martelly continue até 14 de maio (quando se completam cinco anos desde sua posse) e organize as eleições, mas essa opção parece complicada porque a oposição ameaçou sair às ruas se o governante continuar no poder depois do dia 7.

O primeiro-ministro haitiano afirmou na terça-feira que Martelly entregará o cargo em 7 de fevereiro como manda a Constituição, mas há negociações de alto nível para que não haja um "vazio de poder" no país.

Em uma breve entrevista ao jornal haitiano "Le Nouvelliste", Paul explicou que o Executivo está "trabalhando com todos os setores políticos para buscar uma solução para melhorar a crise e não deixar um vazio de poder que piore mais a situação".

Além disso, ele indicou que no contexto atual "não é possível realizar uma votação no país antes do fim do mandato presidencial". "Estamos mantendo diálogos (com todos) para tirar o país dessa situação."

O Haiti vive uma forte crise política depois do adiamento do segundo turno das eleições pela segunda vez na semana passada. 

A oposição exige uma nova comissão que verifique os resultados do primeiro turno realizado em outubro, um novo governo e uma renovação do Conselho Eleitoral Provisório (CEP). Por sua parte, o candidato governista, Jovenel Moise, quer que as eleições prossigam normalmente.

As ruas da capital Porto Príncipe permaneceram calmas ao longo da terça-feira após vários dias de protestos violentos, mas estão previstas novas manifestações da oposição e do governo para reivindicar a realização da votação.

O Partido Lavalas, do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, reivindicou novas eleições legislativas e presidenciais e pediu a prisão dos responsáveis pelas fraudes cometidas nos processos anteriores, causadores da atual crise.

Nas eleições previstas para o domingo passado deveriam se enfrentar Moise e o opositor, Jude Celestin, que se negou a participar devido à suposta fraude cometida no primeiro turno, realizado em 25 de outubro.

Moise foi o candidato mais votado em outubro, numa eleição tachada de "fraudulenta" pela oposição que se nega a aceitar esses resultados.

Uma comissão independente nomeada por Martelly para investigar essa votação também determinou que o processo esteve infestado de "sérias irregularidades", ao mesmo tempo em que recomendou medidas como a submissão à Justiça de funcionários eleitorais e a elaboração de uma nova lista de eleitores.

O segundo turno, originalmente programado para acontecer no dia 27 de dezembro, foi suspenso indefinidamente pelo CEP na sexta-feira passada, que alegou razões de segurança.

O próprio organismo eleitoral está praticamente desmantelado, pois está composto na atualidade por apenas três de seus nove membros titulares, já que cinco renunciaram e um foi suspenso sob acusações de corrupção. / EFE e REUTERS

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