Andrea Hernandez / The Washington Post
Andrea Hernandez / The Washington Post

Em meio à crise, venezuelanos apelam à religião

Segundo líderes religiosos, há uma enxurrada de não praticantes e fiéis; analistas veem sinais de que possa emergir nova força política

Arelis R. Hernández e Mariana Zuñiga / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2019 | 05h00

Fustigado por crises políticas e humanas, um dos países menos religiosos da América Latina volta-se agora para a . À medida que o impasse político entre o presidente Nicolás Maduro e o líder da oposição Juan Guaidó atravessa mais um mês, e a escassez de eletricidade, comida e água reduz a vida a uma luta diária pela sobrevivência, líderes de todas as tradições religiosas estão relatando uma enxurrada de fiéis e não praticantes em busca de conforto.

“Todas as minhas missas estão lotadas, o que nunca aconteceu antes”, disse o reverendo Jesús Godoy, um padre católico da paróquia do Bom Pastor, no distrito de Chacao, em Caracas. Ele diz que recebe mais de 2 mil pessoas a cada fim de semana.

Neste país profundamente polarizado, os analistas observam sinais de que dessa crença crescente possa emergir uma força política. Já existem indícios: os membros do clero comentam os problemas do país em homilias e sermões. Igrejas, sinagogas e mesquitas aumentam seus serviços para os pobres. Padres e freiras vão a manifestações a favor de Guaidó em seus trajes clericais.

“Ser um participante espiritual na Venezuela hoje é expressar solidariedade a pessoas que sofrem e sentem-se impotentes”, disse Geoff Ramsey, diretor-assistente na Venezuela do Escritório de Washington na América Latina (Wola). “Isso em si é um ato político.”

Mas um movimento organizado e com base na fé, em resposta ao impasse político entre Maduro e Guaidó, ainda precisa emergir. Analistas dizem que não veem nenhuma evidência de que Maduro esteja mais preocupado com líderes ou grupos religiosos do que com a oposição geral a seu governo.

O governo socialista da Venezuela tem uma história complicada com questões de fé. Hugo Chávez, que lançou a revolução há duas décadas, viu o potencial de usar o cristianismo como uma ferramenta do Estado e invocou seu imaginário como parte de seu apelo público. No início, alguns líderes religiosos estavam abertos à sua promessa de melhorar a vida dos pobres. Agora, muitos são críticos.

O televangelista pentecostal Javier Bertucci, que lidera uma igreja com 16 mil membros na cidade de Valência, concorreu à presidência em 2018 como uma alternativa a Maduro e à oposição – e conseguiu quase 1 milhão de votos.

A Igreja Católica da Venezuela, o maior e mais poderoso grupo de fé no país, tem se manifestado em oposição a Maduro.

E ele tomou nota. Em um pronunciamento transmitido pela televisão estatal em janeiro, Maduro chamou a si mesmo de “verdadeiro líder cristão” e pediu aos venezuelanos que rezassem por ele.

Jaime Palacios, professor de filosofia na Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas, diz que igrejas, sinagogas e mesquitas estão atentas aos desafios sociais e econômicos das comunidades às quais atendem, e podem estar organizando instituições para a ação política.

Neste país sul-americano de 30 milhões de habitantes, os sinais de colapso estão por toda parte. Crianças e adultos pegam comida em pilhas de lixo. Os hospitais pedem aos pacientes que comprem e tragam as próprias bolsas para soluções intravenosas e luvas cirúrgicas. 

O país está dividido e em um impasse. Maduro clamou vitória nas eleições do ano passado, amplamente vistas como fraudulentas. Guaidó declarou-se presidente interino em janeiro.

Ninguém tem dados sobre a frequência aos serviços religiosos em nível nacional. Mas líderes de todas as tradições religiosas da Venezuela – católicos, cristãos evangélicos, testemunhas de Jeová, mórmons, budistas – dizem que viram as multidões se multiplicarem nos últimos meses. Vários estimaram um aumento de pelo menos 30%. “É algo novo para mim, ver tantas pessoas vindo de suas casas aos domingos”, disse o reverendo Manuel Zapata, um padre jesuíta. “As pessoas têm uma necessidade espiritual muito grande este ano”.

David Smilde, um membro sênior do escritório de Washington na América Latina, disse que o retorno à religião faz sentido. “Não ter água, não saber se você tem algo para comer são desafios existenciais”, disse. “É exatamente quando a religião começa a parecer interessante.”

O irmão Guayanés viu um aumento dramático nas visitas ao Callejón de los Brujos (um tipo de caminho espiritual), em Petare. Aqui no Beco dos Sorceradores, Guayanés, cujo nome de nascimento é Carlos Márquez, e outros seis curandeiros espirituais cobram por um encontro com o divino. Guayanés diz que recebe de 300 a 400 pessoas por semana buscando cura em uma mistura idiossincrática de “santería”, católicos, indígenas e adeptos de rituais da Nova Era.

Curandeiro

Um jovem casal trouxe a filha de 3 anos para o curandeiro vestido de seda. Ela tem asma e seus pais não podem pagar o remédio. A família sempre acreditou em seu poder para curar, disse Giovanni García, o pai da menina. Mas agora o ritual é indispensável para suas vidas precárias. A família estava sentada diante de um altar de santos e o busto de um cacique indígena.

“Todos chegam com um problema diferente”, disse Guayanés. “Mas, ultimamente, as pessoas estão sofrendo de nervosismo, ansiedade e depressão. O desequilíbrio está nos espíritos”, disse Guayanés, tomando um gole de licor local em frente a uma estátua de Simon Bolívar e Xangô, uma divindade da religião iorubá. “Somos um barco à deriva. Não há capitão”, disse. “Aqui, pedimos esperança.” 

Na cidade andina de Mérida, o Centro Budista oferece uma abordagem diferente. “Nunca conseguiremos nos afastar completamente do sofrimento”, disse o diretor do centro, Vajranatha, que usa apenas um nome. “Então, em vez de tentar escapar, voltamo-nos para ele e aceitamos esse sofrimento.”

Através de meditação e estudo, o líder do centro, Carlos Luis, diz que os budistas antigos e novos estão aprendendo a transcender e libertar-se da miséria da Venezuela.

Gladys Torres, de 73 anos, católica durante toda sua vida, disse que invoca Deus agora mais do que nunca. Mas já se passaram seis meses desde que a diabética tomou insulina ou o remédio de hipertensão dos quais precisa para manter a pressão arterial sob controle. Ela está perdendo peso. Sente-se fraca e sem esperança. “Deus meu, até quando?”, disse. / Tradução de Claudia Bozzo

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