REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Em meio à escassez, comprar comida torna-se suspeito na Venezuela

Maduro tenta aumentar controle sobre a distribuição e consumo de alimentos

Mariana Zuñiga e Nick Miroff /, WASHINGTON POST

17 de setembro de 2016 | 05h00

A corrida pela comida começou às 4 da manhã, quando Alexis Camascaro saiu da cama para fazer fila fora do supermercado. Ao chegar lá, já havia mais de cem pessoas na frente. Camascaro não conseguiu entrar. Soldados trazidos por caminhões surgiram das sombras e o prenderam, com outros 30, tirando-os da fila numa escolha aleatória. Camascaro, de 50 anos, foi acusado de violar as leis que proíbem “interferir direta ou indiretamente” na produção, transporte ou venda de alimentos. Está na cadeia já há três meses, aguardando ser ouvido pelo juiz.

“Fui ver os promotores e expliquei que ele só estava tentando comprar alguma comida pra a família. Ele não é um bachaquero”, disse a advogada de Camascaro, Lucia Mata, usando a gíria venezuelana que designa alguém que compra bens escassos ou subsidiados para revender no mercado negro. Camascaro foi apanhado num novo tipo de investida contra compradores, parte da tentativa do governo do presidente Nicolás Maduro de aumentar o controle sobre a distribuição e consumo de alimentos. Maduro atribui a escassez crônica, num país rico em petróleo, a uma “guerra econômica” contra seu governo, deflagrada por inimigos do exterior, líderes opositores, empresários e gangues de contrabandistas.

Muitos economistas, porém, atribuem a crise de abastecimento a causas mais simples e menos conspiratórias. Controle de preços e regulamentação excessiva, dizem eles, desestimularam a produção, deixando os venezuelanos cada vez mais dependentes de comida importada. Com os preços do petróleo afundando, porém, falta moeda forte para importar, o que deixa vazias as prateleiras dos supermercados.

Num país com um dos mais altos índices de homicídio do mundo, e no qual roubos e sequestros frequentemente ficam impunes, o governo prendeu ou deteve 9.400 pessoas neste ano por supostamente violarem as leis contra estocagem ilegal de alimentos, segundo a ONG venezuelana Movimiento Vinotinto. Em outras cidades, prefeitos governistas determinaram que supostos bachaqueros (nome de uma formiga capaz de carregar várias vezes o próprio peso) prestem serviços comunitários ou varram ruas. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

 

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