Rafael Hernández / EFE
Rafael Hernández / EFE

Guaidó volta à Venezuela desafiando Maduro e convoca novo protesto para sábado

Líder opositor chega ao país em voo comercial, ignorando o risco de ser preso, convoca manifestação para o sábado e pede às Forças Armadas que se juntem a ele; chavismo evita falar sobre o interino e convida população a comemorar o carnaval

Redação, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2019 | 10h24
Atualizado 04 de março de 2019 | 20h13

CARACAS - O embate político na Venezuela entrou nesta segunda-feira, 4, em uma nova fase após o líder opositor Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino do país, desafiar ordens chavistas e uma possível prisão e voltar a Caracas depois de um giro diplomático por países da América Latina. Guaidó pressionou novamente as Forças Armadas a se juntarem a ele. 

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Após chegar em um voo comercial, Guaidó desembarcou no aeroporto internacional de Maiquetía, num sinal de determinação do opositor e uma aparente concessão de Nicolás Maduro, já que seria impossível um fugitivo da justiça – como o opositor é considerado – passar pelo controle migratório sem o conhecimento do presidente. 

No aeroporto, Guaidó – reconhecido como presidente interino por mais de 50 países, entre eles Brasil e EUA – foi recebido por embaixadores de países europeus e do Chile. Em seguida, ele seguiu para uma praça no centro de Caracas. “Não vão nos deter com ameaças. Aqui estamos mais fortes e unidos do que nunca”, disse em seu primeiro discurso ao regressar, aclamado por centenas de partidários vestidos de brancos e com bandeiras da Venezuela.

Guaidó convocou uma reunião com sindicatos para hoje e um novo protesto nacional para o sábado 9 com a intenção de ampliar a pressão ao chavismo. “Toda a Venezuela volta às ruas. Não ficaremos nem um segundo tranquilos até conseguir a liberdade.” A mobilização contínua nas ruas tem sido pedida pelo presidente interino como forma de manter vivo o movimento opositor e pressionar por uma transição de poder.

A volta de Guaidó à Venezuela pode ser interpretada como um sinal de concessão do chavismo, pressionado por EUA, países europeus e latino-americanos, principalmente depois de impedir a entrada de ajuda humanitária no país a partir de pontos na fronteira com a Colômbia e o Brasil no dia 23 de fevereiro. Na ocasião, Guaidó desafiou a ordem chavista que o impedia de deixar o país e cruzou para a Colômbia, alegando ter obtido ajuda de militares venezuelanos na fronteira.

Maduro reagiu dizendo que Guaidó deveria “respeitar a lei” e se voltasse à Venezuela “teria de ver a cara” da justiça. O Tribunal Supremo de Justiça é aliado ao governo Maduro e foi quem ordenou o impedimento de saída do líder opositor, congelando seus bens, como parte de uma investigação por “usurpação” de funções.

Nesta segunda, perante a multidão, Guaidó mostrou triunfante seu documento de identidade. “Aqui está meu passaporte, são e salvo”, comemorou. “Bem-vindo presidente, disseram-me os funcionários da Imigração, como carinho e respeito.”

Guaidó questionou até quando os integrantes das Forças Armadas do país seguirão apoiando o governo Maduro. “Forças Armadas, o que mais vocês vão esperar? Já viram como mais de 700 oficiais estão do lado da Constituição e há por aí alguns cínicos dizendo que é pouco”, disse Guaidó. “Sabemos que 80% defende a mudança, sabemos disso, eles se comunicaram conosco”, acrescentou.

Após Guaidó ficar mais de uma semana fora e não ter conseguido a entrada da ajuda humanitária havia o medo entre os que pedem o fim do chavismo de que sua liderança fosse contestada e a oposição perdesse força, dividindo-se novamente, como ocorreu nos protestos de 2014 e 2017.

Nesse sentido, a permissão para que Guaidó voltasse pode ser interpretada como estratégia chavista: deixar o movimento opositor esfriar. “Não vamos cair em provocações”, diziam dirigentes do governo durante o fim de semana. 

Nesta segunda, pelo Twitter, a única manifestação de Maduro foi convidar a população para aproveitar o carnaval. “Convido a família venezuelana a desfrutar do #CarnavalFeliz2019 e das belezas naturais que nos oferece nossa amada Venezuela.”

No domingo, Guaidó fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais e apresentou um balanço de sua viagem por cinco países da América do Sul: Colômbia, Brasil, Paraguai, Argentina e Equador. Segundo ele, foi firmada uma “coalizão” internacional em favor da democracia. “As opções de recuperação econômica estão sobre a mesa. Isso está acompanhado da mobilização cidadã e do povo venezuelano”, destacou.

Preocupação

Os Estados Unidos - que não descartam uma intervenção militar na Venezuela -, a União Europeia e vários governos latino-americanos expressaram preocupação pela segurança de Guaidó. "Qualquer ameaça ou ato contra seu retorno seguro encontrará uma forte e significativa resposta dos EUA e da comunidade internacional", advertiu no Twitter o conselheiro de segurança americano, John Bolton.

O vice-presidente americano, Mike Pence, disse na mesma rede social que "qualquer ameaça, violência ou intimidação contra ele não vai ser tolerada e terá uma resposta rápida". 

O retorno do líder opositor à Venezuela põe o governo em um dilema: se o prender, provocará uma forte reação internacional e interna, e se o deixar livre, colocará em evidência certa fraqueza. / AFP e NYT

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