Mahmud Hams / AFP
Mahmud Hams / AFP

Em meio a frágil cessar-fogo, atenção se volta para drama em Gaza e futuro político de Netanyahu

Tanto Israel quanto o Hamas reivindicaram sucesso após o cessar-fogo; acordo atraiu críticas ferozes da ala direita israelense, incluindo vários aliados políticos e concorrentes do primeiro-ministro

Shira Rubin, Michael E. Miller, Steve Hendrix / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2021 | 05h00

TEL-AVIV - Com o recente cessar-fogo entre Israel e o Hamas ocorrido na madrugada de sexta-feira, o foco passou do conflito de 11 dias para suas consequências imediatas, que incluem uma terrível situação humanitária em Gaza e as esperadas consequências políticas em Jerusalém.

Líderes internacionais, incluindo o presidente americano, Joe Biden, receberam bem a notícia do acordo de cessar-fogo e prometeram apoiar os esforços de reconstrução da Faixa de Gaza, onde os ataques aéreos direcionados ao Hamas danificaram os sistemas de eletricidade e fornecimento de água, de acordo com agências humanitárias.

Tanto Israel quanto o Hamas reivindicaram sucesso após o cessar-fogo. Mas em Israel, onde o conflito potencialmente aumentou as chances do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu de permanecer no poder após outra eleição indecisa, políticos de extrema direita dos quais Bibi depende para formar uma coalizão e muitos residentes ao sul de Israel que compõem sua base criticaram o cessar-fogo.

O Hamas, que lançou mais de 4 mil mísseis contra Israel durante o último período de violência, alertou que estava pronto para continuar lutando se o cessar-fogo não durasse. "Netanyahu e o mundo inteiro devem saber que nossos dedos estão no gatilho e continuaremos a aumentar os recursos dessa resistência", disse à agência Reuters Ezzat El-Reshiq, integrante do gabinete político do Hamas.

Em um discurso na noite de quinta-feira, Biden prometeu ajuda humanitária para Gaza, onde agências humanitárias dizem que uma crise está se formando. Israel manteve os postos de controle em Gaza fechados durante a maior parte do conflito, e caminhões que transportavam suprimentos médicos e agentes humanitários tiveram o acesso negado à região nos últimos dias.

Biden disse que a ajuda seria coordenada com a Autoridade Palestina - o rival do Hamas que controla partes da Cisjordânia - "de uma maneira que não permita ao Hamas simplesmente reabastecer seu arsenal militar". Os Estados Unidos consideram o Hamas um grupo terrorista e evitam o contato direto.

O presidente recebeu críticas dos republicanos depois de pedir um cessar-fogo na segunda-feira, mas seu papel nas negociações da interrupção dos ataques, liderada pelo Egito, foi elogiado pelo presidente egípcio Abdel Fatah el-Sissi em um tuíte na sexta-feira.

Tor Wennesland, o enviado das Nações Unidas (ONU) para o processo de paz no Oriente Médio, agradeceu ao Egito e ao Catar, que também estiveram envolvidos nas negociações, e ressaltou que agora "o trabalho de construção da Palestina pode começar".

"Este é o poder da ação coletiva e unificada. Este é o esforço de cada pessoa e de cada país, juntos por uma causa justa", tuitou Shah Mahmood Qureshi, ministro das Relações Exteriores do Paquistão. "Que este cessar-fogo seja o primeiro passo para a paz na Palestina."

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, aconselhou os líderes israelenses e palestinos a "irem além da restauração da calma para iniciar um diálogo sério com o intuito de abordar as raízes do conflito". Mas não ficou claro se os termos do acordo de cessar-fogo tocaram em alguma dessas causas.

Riad Al-Malki, o principal diplomata dos palestinos, disse que o cessar-fogo foi bem-vindo, mas "não o suficiente" porque não abordou a "questão central" que deu início à violência, informou a Associated Press. Ele citou as ações das autoridades israelenses na mesquita de Al-Aqsa em Jerusalém e o possível despejo de famílias palestinas do bairro de Sheikh Jarrah em Jerusalém Oriental.

Um representante do Hamas, no entanto, disse no canal de televisão do Hezbollah que o grupo havia conquistado concessões de Israel nessas duas questões. Autoridades israelenses negaram essas alegações, dizendo que o acordo de cessar-fogo pedia apenas a suspensão imediata das operações militares, e uma declaração do gabinete de segurança enfatizou que o acordo implicava um "cessar-fogo mútuo e incondicional".

Mas, minutos após o cessar-fogo entrar em vigor na sexta-feira de manhã, outro representante do Hamas reivindicou "vitória". “Esta é a euforia da vitória”, disse Khalil al-Hayya, importante participante do gabinete político do Hamas, a uma multidão de milhares em Gaza.

Às 2 da manhã, os residentes de Gaza aplaudiram das varandas. Tiros comemorativos foram escutados pelos bairros em sua maioria escuros, algumas buzinas soaram de carros que enfrentavam as ruas cheias de crateras e louvores a Deus soaram nas mesquitas ao redor de Gaza. Os habitantes da cidade desfilavam pela praia com a luz da lanterna de seus celulares acesas.

Com a aproximação do amanhecer, o tráfego e os vendedores ambulantes voltaram às ruas de Gaza. E os trabalhadores municipais começaram a remover entulho para permitir o tráfego nas estradas. Dezenas de milhares de habitantes de Gaza que sobreviveram aos combates em escolas administradas pela Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente ou na casa de amigos ou parentes começaram a voltar para casa.

"Temos o direito de nos alegrar, apesar da dor, das feridas, das casas destruídas e dos mártires", disse al-Hayya, o líder do Hamas. “Digo em nome do nosso povo palestino, vamos construir as casas destruídas pela ocupação, vamos devolver o sorriso e a esperança aos enlutados”.

As comemorações também ocorreram nas cidades de Nablus, Jenin, Ramallah e Hebron na Cisjordânia. Fogos de artifício e comboios de carros buzinando soaram por toda Jerusalém Oriental.

As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) disseram que sua campanha, que incluiu 200 horas de bombardeio, atingiu em grande parte o objetivo de degradar drasticamente os recursos do Hamas.

"A destruição dos túneis de guerra em toda a Faixa de Gaza e daqueles que invadiram Israel foi uma conquista estratégica, (assim como])a destruição do sistema de produção e desenvolvimento de mísseis, veículos aéreos não tripulados e embarcações navais", escreveu Ran Ben Yishai no site de notícias israelense Ynet.

"Mas - e este é um grande mas - as IDF não conseguiram destruir o sistema de lançamento de foguetes e mísseis do Hamas. Muitas das armas estratégicas dos exércitos terroristas de Gaza ainda são utilizáveis, permitindo que o Hamas e a Jihad Islâmica ameacem Israel e mantendo a sensação de terror na nossa frente."

Ele acrescentou que a dissuasão contra o Hamas obtida com os combates dependeria das políticas adotadas pelo próximo governo israelense, cuja composição permanece desconhecida.

O cessar-fogo atraiu críticas ferozes da ala direita de Israel, incluindo vários aliados políticos e concorrentes de Netanyahu. Itamar Ben Gvir, líder do partido de extrema direita Poder Judeu, que tem sido cortejado por Netanyahu, tuitou que o cessar-fogo foi "vergonhoso" e uma "rendição ao terrorismo".

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Gideon Saar, um ex-aliado que agora lidera um pequeno partido que se opõe a Netanyahu, chamou o cessar-fogo de "constrangedor".

E Gadi Yevarkan, ministro da Segurança júnior que pertence ao partido de Netanyahu, o Likud, tuitou que um cessar-fogo sem a devolução dos corpos dos soldados capturados pelo Hamas em 2014 e de dois civis israelenses detidos pelo grupo foi "uma recompensa pelo terrorismo."

Antes da disparada do conflito, o primeiro-ministro estava a dias, talvez horas, de ser destituído de seu papel de líder do país quando os combates começaram. Uma coalizão de partidos de oposição estava supostamente perto de anunciar que havia garantido a maioria dos votos parlamentares para formar um novo governo quando o Hamas disparou mísseis contra Jerusalém. Mas o conflito atrapalhou essa iniciativa, abrindo a porta para a quinta eleição de Israel em dois anos.

"No momento, estou dando crédito a você por conduzir a ofensiva", tuitou Bezalel Smotrich, líder do partido de extrema direita Sionismo Religioso e um dos principais apoiadores do primeiro-ministro. "Mas se, Deus me livre, um acordo / entendimento com o Hamas incluem, explícita ou implicitamente, qualquer coisa relacionada a Jerusalém ... você pode esquecer a formação de um governo."

O debate a respeito de outra eleição não foi o único sinal do retorno à normalidade em Israel na sexta-feira. Os militares israelenses anunciaram que estavam suspendendo a maioria das restrições de movimentação por  todo o país, incluindo nas proximidades de Gaza, mas que as escolas permaneceriam fechadas. / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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