Saumya Khandelwal/NYT
Saumya Khandelwal/NYT

No pico do contágio, indianos impõem derrota a premiê que liderou comícios

Narendra Modi encabeçou mobilizações multitudinárias na tentativa de dar a seu partido, nacionalista hindu, o controle de cinco regiões, mas foi rejeitado nas urnas em meio a uma onda que faz o país registrar cerca de 400 mil infecções por dia

Jeffrey Gettleman e Hari Kumar, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2021 | 18h44
Atualizado 02 de maio de 2021 | 22h23

NOVA DÉLHI - Narendra Modi encabeçou mobilizações multitudinárias na tentativa de dar a seu partido, nacionalista hindu, o controle de cinco regiões, mas foi rejeitado nas urnas em meio a uma onda que faz o país registrar cerca de 400 mil infecções por dia

Alvo de críticas pela gestão da pandemia que garantiu ter superado no fim de janeiro, mas agora tem a Índia como epicentro, o premiê nacionalista Narendra Modi sofreu neste domingo, 2, derrotas em eleições regionais. Ele não só fez campanha, como liderou comícios multitudinários no país de 1,4 bilhão de habitantes. A votação ocorreu entre março e abril. O resultado veio neste domingo.

 O grande revés para o mais poderoso premiê indiano em décadas ocorreu em Bengala Ocidental (90 milhões de habitantes), onde um dos partidos de oposição mais agressivos venceu eleições estaduais. Isso ocorreu apesar de Modi e sua legenda, o partido do Povo Indiano (Bharatiya Janata), conhecido como BJP, terem organizado enormes comícios, que os críticos disseram ter ajudado a espalhar o vírus. 

Parte dos indianos ficou chocada até mesmo com a realização das eleições. O país enfrenta uma disparada no número de casos e mortes por causa de uma segunda onda de covid-19. Os hospitais estão tão cheios que há doentes morrendo nas ruas. No sábado, o país registrou mais de 400 mil infecções em 24 horas. Especialistas dizem que o número real é muito maior. No sábado, a Índia registrou quase 3,7 mil mortes, o maior número de vítimas em um único dia no país (o Brasil, em seu pior registro, teve 4,2 mil). 

Em Nova Délhi, há grave escassez de oxigênio medicinal e dezenas têm morrido sem ar em leitos de hospital. Os locais de cremação funcionam dia e noite, queimando milhares de corpos. 

O país está repleto da variante mais letal e transmissível do novo coronavírus, a B.1.1.7, encontrada pela primeira vez na Grã-Bretanha, assim como uma variante desenvolvida internamente chamada B.1.617. Os especialistas estão preocupados que o surto não controlado possa gerar cepas mais perigosas.

Modi, que mantém uma linha de governo nacionalista e populista, tinha uma reunião programada com seu ministro da Saúde neste domingo para discutir a falta de oxigênio e as preocupações de que médicos e enfermeiras estão sobrecarregados e exaustos. 

No sábado, as autoridades indianas anunciaram que o primeiro lote da vacina russa Sputnik V havia chegado, um empurrão para a fraca campanha de vacinação da Índia. O país é o maio produtor mundial de vacinas, mas não tem doses suficientes para avançar na imunização. Apenas 2% da população foi vacinada, mas o país exportou mais de 60 milhões de doses para fortalecer a própria posição no cenário mundial.

Críticos têm reprovado a maneira como Modi lida com a crise. Um lockdown repentino e severo imposto no início da pandemia fez com que milhões de trabalhadores voltassem às suas cidades natais e abalou a economia. Quando os casos diminuíram, o governo deixou de levar em consideração os avisos dos cientistas de um possível ressurgimento de casos, e a força-tarefa contra a covid-19 do país demorou meses para se reunir. 

Resultados

Na noite deste domingo, com quase todos os votos contados em Bengala Ocidental, o partido Todo o Congresso da Índia Trinamool, que detém o poder no Estado, tinha uma vantagem ampla. A governadora Mamata Banerjee, a única ministra-chefe da Índia, que desenvolveu seu próprio culto à personalidade, conseguiu o terceiro mandato seguido e 210 dos 294 assentos, diante de 77 do partido de Modi.

Outras quatro regiões estavam em disputa. Em Tamil Nadu (62,8 milhões de habitantes), o principal partido da oposição, o regional DMK, conseguiu 157 dos 234 assentos em jogo. O partido de Modi também não teve êxito em Kerala (26 milhões de habitante), onde o triunfo ficou com uma coalizão de esquerda.

Os únicos resultados positivos de Modi vieram nas menores regiões em disputa. As vitórias de Modi ocorreram em Assam (23 milhões de habitantes) e no pequeno Estado de Puducherry (1 milhão).

 

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