Em meio à onda de destruição, manifestantes salvam restaurante

Prejuízos provocados por protestos violentos, terrorismo e atos de guerra não são cobertos pelas seguradoras

FERGUSON, EUA, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h01

Aberto há pouco mais de um ano, o restaurante Cathy's Kitchen estava na rota da destruição que se arrastou pelas ruas de Ferguson na noite de segunda-feira, logo depois do anúncio de que o policial branco Darren Wilson não seria processado pela morte do jovem negro Michael Brown. Suas janelas de vidro, no entanto, foram poupadas graças a um grupo de manifestantes que fez um cordão de isolamento na entrada.

O dono do Cathy's Kitchen, Jerome Jenkins, não conhece as pessoas que evitaram a destruição do restaurante que fundou com a mulher, a chefe Cathy. "Eu sou profundamente grato e gostaria de convidá-los para comer aqui", disse ontem ao Estado. O lugar era um dos poucos abertos nas imediações do Departamento de Polícia de Ferguson, um dos focos dos protestos violentos de segunda-feira, que terminaram com edifícios e carros incendiados e dezenas de vidros estilhaçados.

Quase todas as lojas da rua têm placas de madeira protegendo janelas e portas, que ontem estavam fechadas. A neve que caiu a partir do meio-dia tornou a paisagem ainda mais desabitada. No entanto, dentro do Cathy's, dezenas de pessoas comiam, se cumprimentavam e conversavam, tentando retomar a normalidade depois de três meses de turbulência.

A quatro quadras do restaurante, o casal Ed e Darcy Edwin enfrentava a neve e trabalhava no projeto de criação de um mural na fachada de madeira colocada em frente a uma ótica depois que os vidros foram destruídos pelo vandalismo.

Brancos e moradores de Ferguson há quatro anos, eles propuseram aos donos pintar um carvalho, árvore que para eles simboliza força. "Nossa mensagem é: 'Fique firme, Ferguson, nós somos uma família'", disse Darcy, que é a artista do casal.

Na mesma rua, a entidade sem fins lucrativos I Love Ferguson arrecadava recursos que serão destinados à reconstrução das inúmeras pequenas empresas destruídas nos protestos violentos que ocorreram desde a morte de Michael Brown, em 9 de agosto. Idealizada pelo ex-prefeito Brian Fletcher, a instituição foi criada quatro dias depois da morte do jovem negro. Desde então, doou US$ 15 mil a um fundo voltado à reconstrução dos negócios afetados e planeja doar mais US$ 15 mil até o fim do mês.

"A destruição provocada por protestos violentos, terrorismo e atos de guerra não são cobertos pelas seguradoras e essa comunidade já sofreu perdas de centenas de milhares de dólares", declarou Fletcher. "Ferguson não pode carregar nos ombros todos os problemas de direitos civis do país. Não há muito mais o que destruir aqui."

Tanto Fletcher quanto Jenkins criticaram a ação da polícia e do governador de Missouri, Jay Nixon, no dia em que foi anunciada a conclusão do grande júri de que não há indícios suficientes para a abertura de um processo criminal contra Wilson. O policial disparou 12 tiros contra Brown, dos quais, 6 atingiram o jovem, que estava desarmado.

"Esse não foi o primeiro protesto violento que tivemos aqui e nós não tínhamos ninguém para nos proteger", afirmou Jenkins. "Os que cometeram atos de vandalismo não eram manifestantes, mas criminosos." / C.T.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.